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Como o Yoga entende o sofrimento: mente, kleshas e o caminho de volta à integração

18 de fev.
9 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.

Há algum tempo encontrei anotações de uma palestra sobre Yoga que eu havia assistido anos antes. O caderno tinha frases soltas sobre mente, sofrimento, os koshas, transmissão do conhecimento e a relação entre aquilo que vivemos internamente e a maneira como nos relacionamos com o mundo. Algumas ideias continuavam fazendo muito sentido para mim; outras, relidas com mais estudo e experiência, pediam contexto. E talvez essa seja uma boa imagem do próprio caminho do Yoga: nós recebemos ensinamentos, praticamos, estudamos novamente e, com o tempo, começamos a perceber nuances que antes não conseguíamos ver.


Uma das frases que eu tinha circulado naquele caderno era: “o inferno é a mente em conflito”. Não é um verso dos Yoga Sūtras nem uma definição clássica do Yoga; era uma frase da palestra. Mas continuei pensando nela porque descreve muito bem uma experiência que provavelmente todos conhecemos: uma parte de nós quer uma coisa, outra quer exatamente o contrário; sabemos o que deveríamos fazer, mas agimos de outra maneira; desejamos que a realidade seja diferente daquela que está diante de nós. O Yoga olha profundamente para esse conflito e, quando começamos a estudar sua filosofia, percebemos que lidar com o sofrimento sempre esteve muito mais próximo do centro da prática do que conseguir realizar uma postura difícil.


mulher sentada com xícara na mão lendo um livro com um japamala

O Yoga não promete uma vida sem situações difíceis


Às vezes falamos sobre Yoga como se a prática tivesse a função de nos manter permanentemente calmos, equilibrados e felizes. Não é assim que eu compreendo. Praticar Yoga não impede perdas, frustrações, mudanças, doenças, conflitos ou medo, e a prática também não nos transforma em pessoas que deixam de sentir raiva, tristeza ou insegurança. O que pode mudar é a nossa capacidade de observar o que acontece e perceber quanto sofrimento acrescentamos àquilo que já está acontecendo. Existe a situação que estamos vivendo e existe tudo aquilo que a mente produz em torno dela: expectativas, resistência, medo do que ainda não aconteceu, lembranças, comparações e tentativas de controlar o que não depende de nós. É justamente essa relação entre percepção, identificação, desejo, aversão e sofrimento que aparece de maneira muito clara nos Yoga Sūtras de Patañjali.


Os cinco kleshas: de onde vem parte do nosso sofrimento


Patañjali apresenta cinco kleśas, geralmente traduzidos como aflições ou causas de sofrimento: avidyā, asmitā, rāga, dveṣa e abhiniveśa. Avidyā é a ignorância ou compreensão equivocada da realidade e não se trata simplesmente de não possuir informação; é uma confusão mais profunda sobre aquilo que somos e sobre a natureza das coisas. Asmitā está relacionada à identificação do “eu”, à tendência de confundirmos aquilo que observa com os instrumentos através dos quais experimentamos o mundo. Rāga é apego, atração ou desejo por aquilo que nos trouxe prazer; dveṣa é aversão ao que relacionamos à dor ou ao desconforto; e abhiniveśa é o apego à continuidade da própria existência, frequentemente relacionado ao medo da morte.


Eu fazia anteriormente uma afirmação de que, segundo Patañjali, “o medo da morte é a principal fonte do sofrimento”. Hoje eu faria essa explicação de outra maneira. Abhiniveśa é um dos cinco kleśas, enquanto Patañjali dá um lugar especialmente importante a avidyā, colocando-a como o terreno no qual os demais podem existir. Essa diferença parece pequena, mas é importante quando queremos estudar Yoga com um pouco mais de profundidade. O sofrimento, dentro dessa perspectiva, não pode ser reduzido a um único medo; existe toda uma dinâmica de identificação, apego, aversão e percepção equivocada acontecendo.


Talvez o conflito comece quando exigimos que a realidade corresponda à nossa mente


Pense numa situação muito simples: você queria que determinada coisa acontecesse e ela não aconteceu. Existe o fato — não aconteceu — e então começa tudo o que a mente constrói ao redor dele: “não deveria ter sido assim”, “eu precisava disso”, “isso sempre acontece comigo”, “e se nunca der certo?”, “por que aquela pessoa conseguiu e eu não?”. Em poucos minutos, já não estamos mais lidando apenas com o acontecimento original, mas com uma quantidade enorme de pensamentos, memórias, expectativas e projeções. Isso não significa que devemos usar Yoga para nos convencer de que nada importa ou que não deveríamos desejar mudanças na nossa vida. Discernimento também faz parte do caminho. Há situações que precisam ser modificadas, relações que precisam terminar, limites que precisam ser colocados e decisões que precisam ser tomadas. A questão é perceber com mais clareza o que está realmente acontecendo antes de reagirmos automaticamente.


Citta, mente e as quatro funções do antahkarana


Outro trecho das minhas anotações dizia que “a mente, no Yoga, possui quatro partes: manas, citta, ahamkara e buddhi”. Essa explicação também merece mais precisão. Dentro das diferentes tradições filosóficas indianas, encontramos modelos distintos para compreender a mente. No Vedānta, é comum encontrarmos o conceito de antaḥkaraṇa, o instrumento interno, descrito através de quatro funções: manas, buddhi, ahaṃkāra e citta. Manas está relacionado ao pensamento, à dúvida, às possibilidades e ao processamento das informações que chegam pelos sentidos; buddhi é a faculdade de discernimento, determinação e decisão; ahaṃkāra é o “fazedor de eu”, aquilo que apropria a experiência; e citta está relacionado à memória e às impressões mentais dentro desse modelo.


Nos Yoga Sūtras de Patañjali, entretanto, citta ocupa um sentido mais abrangente e está no centro da própria definição da prática: yogaś citta-vṛtti-nirodhaḥ. Por isso, acho importante não pegar conceitos de diferentes textos e tradições e apresentá-los como se todos viessem exatamente do mesmo lugar. Eles conversam entre si, mas possuem seus próprios contextos, e reconhecer essas diferenças não diminui a tradição; pelo contrário, permite estudá-la com mais cuidado.


O Yoga desenvolve discernimento, não ausência de pensamento


Uma das coisas que considero mais interessantes na ideia de buddhi é a possibilidade de discernir. Nem todo pensamento precisa se transformar em ação, nem toda emoção precisa decidir o que faremos, nem todo medo é uma previsão e nem todo desejo precisa ser atendido. A prática começa a criar um pequeno espaço entre aquilo que aparece na mente e aquilo que fazemos em seguida. É um processo muito diferente de tentar “parar de pensar”. Quando sentamos para meditar e percebemos que a mente está cheia de pensamentos, isso não significa necessariamente que estamos meditando errado; o fato de conseguirmos perceber o pensamento já modifica nossa relação com ele. Em vez de sermos completamente arrastados pela experiência mental, começamos a observá-la, e essa capacidade pode continuar fora da meditação.


Os cinco koshas não são simplesmente “cinco corpos”


Outro conceito que aparecia muito nas minhas anotações eram os koshas. Eles aparecem na Taittirīya Upaniṣad como diferentes camadas ou envoltórios através dos quais podemos compreender nossa experiência: annamaya, prāṇamaya, manomaya, vijñānamaya e ānandamaya. Annamaya está relacionado ao corpo constituído e sustentado pelo alimento; prāṇamaya, à dimensão vital e ao prāṇa; manomaya, à dimensão mental; vijñānamaya, ao conhecimento e discernimento; e ānandamaya, à camada relacionada à bem-aventurança. Eu gosto desse modelo justamente porque ele nos lembra que a experiência humana não pode ser reduzida ao corpo físico.


Ao mesmo tempo, tomaria cuidado com uma interpretação muito comum hoje, que transforma os koshas numa espécie de checklist de wellness: “alimente um corpo com comida, outro com respiração, outro com pensamentos positivos e pronto”. Os koshas pertencem a uma investigação filosófica muito mais profunda sobre o Self. Podemos utilizá-los como uma lente para observar nossa experiência, mas sem retirar completamente o conceito do contexto em que ele nasceu.


Por que corpo, respiração e mente aparecem juntos na prática?


Mesmo fazendo essas distinções filosóficas, existe uma coisa muito concreta que qualquer pessoa que pratica Yoga consegue perceber: corpo, respiração e mente não funcionam como compartimentos completamente separados. Quando estamos ansiosos, a respiração pode mudar; quando estamos exaustos, o corpo responde; quando permanecemos muito tempo em tensão, percebemos isso fisicamente. Da mesma maneira, modificar conscientemente a respiração ou a maneira como nos movimentamos pode modificar nossa experiência naquele momento. É por isso que considero tão limitada uma aula em que asana é tratado apenas como exercício físico. O corpo é uma das portas de entrada, pranayama é outra, meditação é outra, e estudo, auto-observação e discernimento também fazem parte. Dependendo da tradição e do caminho que estamos estudando, outros recursos entram nessa prática. O objetivo não precisa ser sair de cada aula completamente relaxada; às vezes a prática justamente nos faz perceber alguma coisa que estávamos evitando.


Yoga é muito mais do que asana — mas eu também não diria que “Yoga é tudo”


No texto que escrevi anteriormente, havia uma frase bastante enfática: “Yoga é tudo”. Hoje eu faria essa afirmação com mais cuidado. Entendo a intenção por trás dela: queremos dizer que Yoga não acontece exclusivamente quando abrimos um tapete e fazemos posturas. Concordo com isso. A maneira como nos relacionamos com nossas ações, desejos, reações, escolhas e com outras pessoas pode fazer parte do caminho do Yoga; yamas, niyamas, meditação, pranayama, estudo e diferentes caminhos filosóficos deixam isso muito claro. Mas, se chamarmos absolutamente tudo de Yoga, a palavra começa a perder precisão. Nem tudo que fazemos conscientemente é automaticamente Yoga, nem toda atividade de autocuidado é Yoga e nem toda filosofia sobre bem-estar é Yoga. Acho mais interessante dizer que o caminho do Yoga ultrapassa o momento da prática de asanas e começa a influenciar a maneira como vivemos. Isso preserva a amplitude sem transformar Yoga numa palavra capaz de significar qualquer coisa.


E onde entram os chakras?


Os chakras também apareciam nas anotações da palestra, associados aos instintos, à psicologia e a uma suposta progressão dos “chakras inferiores” para os “superiores”. Hoje eu não misturaria essas ideias dessa maneira. Os sistemas de chakras aparecem especialmente em tradições tântricas e posteriormente em diferentes correntes do Hatha Yoga. Existem diferentes sistemas, números de chakras e interpretações dependendo do texto e da tradição. Relacionar diretamente os chakras inferiores ao “id” freudiano, por exemplo, é uma leitura moderna que aproxima dois modelos muito diferentes. Podemos fazer comparações contemporâneas se elas nos ajudam a pensar, mas precisamos dizer que estamos comparando modelos, não afirmar que Freud e os textos tântricos estavam descrevendo exatamente a mesma estrutura usando palavras diferentes. Essa distinção também faz parte de estudar Yoga com responsabilidade.


Os três deveres do conhecimento


Uma parte das anotações que continuo achando muito bonita falava sobre três responsabilidades de quem recebe conhecimento: aprender com quem veio antes, experimentar esse conhecimento na própria vida e transmiti-lo. Eu não apresentaria isso como “os três deveres clássicos do Yoga”, porque era uma estrutura ensinada naquela palestra e não um conceito que eu atribuiria dessa maneira aos textos clássicos. Mas a ideia continua fazendo muito sentido para mim. Primeiro recebemos: existe uma tradição anterior a nós, com professores, textos, mestres e praticantes que estudaram, preservaram, traduziram, questionaram e transmitiram aquilo a que hoje temos acesso. Depois praticamos, porque o conhecimento precisa atravessar nossa própria experiência e não basta decorar conceitos em sânscrito e repeti-los. E, quando ensinamos, transmitimos, o que implica também uma responsabilidade: precisamos saber quando estamos transmitindo uma ideia tradicional, quando estamos interpretando e quando estamos acrescentando nossa própria experiência. Quanto mais estudo Yoga, mais importante considero essa distinção.


O Yoga pode nos ajudar a sofrer menos?


Acho que sim, desde que entendamos o que isso significa. Não porque vamos construir uma vida na qual nada desagradável acontece e também não porque aprenderemos a permanecer serenos diante de absolutamente tudo. Yoga pode nos ajudar a reconhecer padrões que produzem sofrimento desnecessário, pode nos mostrar onde existe apego, aversão, identificação ou medo, pode criar espaço entre estímulo e reação, desenvolver discernimento e modificar nossa relação com o corpo e com a mente. E, para quem percorre Yoga como um caminho espiritual, essa investigação vai ainda mais longe: chega à própria pergunta sobre quem é esse “eu” que sofre, deseja, teme, envelhece e tenta controlar a experiência. É aí que o Yoga deixa definitivamente de ser apenas uma aula de posturas.


A integração não significa que tudo estará sempre em harmonia


Também gosto de rever a maneira como costumamos utilizar a palavra “integração”. Integração não significa chegar a um estado permanente em que corpo, mente, emoções e vida externa estão finalmente organizados e nunca mais entram em conflito. Somos humanos e o conflito aparece. A diferença talvez esteja em percebermos mais cedo: perceber que estamos exaustos antes de simplesmente continuar exigindo do corpo, perceber que determinado pensamento está sendo repetido há dias, perceber que estamos tentando controlar uma situação que não depende de nós ou que uma reação aparentemente enorme talvez esteja carregando experiências anteriores. E então escolher o que fazemos com essa percepção. Essa, para mim, é uma prática muito concreta de Yoga.


Viver no mundo também faz parte do caminho


Outra anotação que permaneceu comigo falava sobre viver em dois mundos: o externo e o interno. Gosto muito dessa imagem porque existe o mundo das contas, do trabalho, das relações, dos compromissos, das decisões e das responsabilidades, e existe nossa vida interna. Yoga não precisa nos afastar do primeiro para nos aproximar do segundo. Podemos meditar e administrar uma empresa, estudar filosofia e pagar boletos, buscar uma vida espiritual e continuar inseridos no mundo. Aliás, talvez seja justamente nessa convivência que percebemos se aquilo que estudamos está realmente atravessando nossa vida. É relativamente fácil se sentir centrada durante alguns minutos de silêncio; a investigação fica mais interessante quando alguma coisa não acontece como queríamos, quando alguém nos contraria, quando sentimos medo ou quando precisamos tomar uma decisão. É aí que encontramos nossa prática novamente.


Talvez a prática seja aprender a enxergar com mais clareza


Quando reli aquelas anotações pela primeira vez, pensei que estava recuperando um conteúdo antigo. Hoje acho que estava fazendo outra coisa: revendo aquilo que eu mesma compreendia sobre Yoga. Algumas ideias permaneceram, outras ganharam mais contexto e algumas eu deixaria de ensinar da maneira como ensinava antes. Isso também faz parte do estudo. Yoga não deveria exigir que continuemos repetindo uma explicação apenas porque foi assim que aprendemos inicialmente; estudar também significa revisar. Se existe uma direção que continua fazendo sentido para mim, é esta: a prática nos convida a observar cada vez melhor aquilo que acontece dentro de nós, distinguir percepção de reação automática e compreender as causas que alimentam nosso sofrimento. Talvez não consigamos impedir que a mente entre em conflito, mas podemos começar a reconhecê-lo e, a partir dessa clareza, ter mais liberdade para escolher o que fazemos depois.


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