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Ritual de Yoga para o Solstício de Inverno: introspecção, desapego e renovação

19 de jun. de 2020
8 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.

Quem me conhece sabe o quanto eu gosto de rituais. Para mim, ritual não precisa ser necessariamente algo complexo ou ligado a uma tradição específica. Pode ser simplesmente uma prática que repetimos com intenção, dando significado a um momento que, de outra maneira, talvez passasse despercebido. É por isso que gosto tanto das mudanças de estação. Elas me oferecem uma pausa para perceber o tempo passando e olhar com um pouco mais de atenção para aquilo que também está mudando em mim.



O Solstício de Inverno acontece no hemisfério sul por volta dos dias 20 e 21 de junho e marca o momento em que temos o menor período de luz do dia e a noite mais longa do ano. A partir daí, lentamente, os dias começam novamente a ganhar mais luz. Gosto muito da simbologia desse movimento porque ele reúne duas coisas que parecem opostas, mas fazem parte do mesmo ciclo: primeiro entramos no período de maior escuridão e, exatamente ali, começa também o retorno gradual da luz.


Por isso, gosto de usar o Solstício de Inverno como um momento de introspecção. Não penso necessariamente em criar grandes metas ou fazer uma nova lista de resoluções como fazemos no início do ano. Para mim, é uma oportunidade de olhar para os meses que passaram, reconhecer o que mudou, perceber o que ainda estou carregando e perguntar o que quero levar comigo para a próxima parte do ciclo.


O ritual que compartilho aqui é uma prática pessoal e intuitiva. Ele reúne elementos que fazem sentido para mim, como meditação, Yoga, escrita, fogo, água e contemplação, mas não está associado a uma tradição específica do Solstício de Inverno. Por isso, não vejo necessidade de reproduzi-lo exatamente como está. Você pode retirar, acrescentar ou substituir elementos e criar uma prática que faça sentido para você.


Por que criar um ritual para o Solstício de Inverno?


Nós costumamos utilizar o começo de um novo ano para pensar em encerramentos e recomeços, mas gosto da ideia de não precisar esperar 365 dias para fazer esse movimento. Os Solstícios e Equinócios dividem o ano em ciclos menores e podem funcionar como pontos naturais de pausa.


O inverno, especialmente, convida para dentro. Os dias ficam mais curtos, as noites mais longas e existe uma tendência natural de recolhimento. Isso não significa que todas as pessoas precisam viver o inverno da mesma maneira ou atribuir um significado espiritual obrigatório à estação. É apenas uma simbologia que gosto de utilizar na minha própria prática.


Em vez de imediatamente perguntar “o que quero conquistar?”, gosto de começar olhando para trás. O que aconteceu desde o último ciclo? O que aprendi? O que mudou de maneira que eu não esperava? O que não faz mais sentido continuar carregando? Antes de pensarmos no que queremos trazer para a luz, talvez exista alguma coisa que precise primeiro permanecer alguns instantes no escuro para ser observada.


O que você vai precisar


Não é necessário montar uma estrutura elaborada. Eu utilizaria uma vela, um tapete ou algum lugar confortável para sentar, papel ou diário, uma caneta e um copo com água. Também gosto de colocar alguns objetos que representem terra ou aterramento para mim, como pedras, cristais, plantas ou objetos naturais.


Se algum outro elemento tiver significado para você, pode incluí-lo. O mais importante é que o ritual não se transforme numa lista de coisas que você precisa comprar para realizá-lo. Os objetos apenas ajudam a marcar simbolicamente que aquele momento é diferente do restante do dia. Reserve cerca de uma hora, mas não fique presa ao relógio. Dependendo da sua maneira de praticar, pode durar menos ou um pouco mais.


Comece criando o espaço


Escolha um lugar em que você consiga permanecer sem muitas interrupções. Organize seu tapete ou almofada e coloque os objetos ao redor de uma maneira que faça sentido para você. Eu gosto de utilizar elementos relacionados à terra porque o inverno me remete a enraizamento, recolhimento e estabilidade.


Acenda a vela e sente-se confortavelmente diante dela. Antes de começar qualquer reflexão, permita que o corpo chegue naquele lugar. Muitas vezes sentamos para meditar ou escrever enquanto a mente ainda está terminando uma conversa, lembrando de alguma tarefa ou pensando no que fará depois. Fique alguns instantes apenas respirando. Não é necessário tentar produzir imediatamente uma experiência especial. Apenas perceba que você escolheu parar.


Trataka e o simbolismo da chama


Gosto de iniciar esse ritual utilizando Trataka, uma prática de concentração do Yoga em que mantemos o olhar em um ponto fixo, tradicionalmente a chama de uma vela.


Olhe suavemente para a chama durante alguns instantes, sem transformar isso numa disputa para descobrir quanto tempo consegue ficar sem piscar. Se os olhos começarem a ficar desconfortáveis, pisque normalmente ou feche-os. Depois, feche os olhos e perceba a imagem da chama que pode permanecer por alguns instantes no campo visual. Leve então a atenção para a respiração e fique cerca de cinco minutos respirando de maneira tranquila.


A chama funciona aqui também como símbolo. Estamos justamente no período em que a noite é mais longa, mas existe uma pequena fonte de luz diante de nós. Gosto de pensar nessa imagem antes mesmo de começar a decidir o que quero para os próximos meses.


Uma pequena prática de Yoga


Depois da meditação, você pode movimentar o corpo. Eu gosto de incluir algumas Saudações ao Sol porque existe uma simbologia interessante em saudar justamente a luz que começa lentamente a retornar. Isso não significa que você precise fazer uma prática intensa. Algumas voltas de Surya Namaskar podem ser suficientes.


Se quiser uma prática mais completa, você também pode fazer a minha Sequência de Yoga para o Solstício de Inverno. A intenção aqui não é “gastar energia” ou fazer um treino antes do ritual. É permitir que corpo, respiração e atenção participem da experiência antes de irmos para a escrita. Depois da prática, volte a sentar-se.


Primeiro olhe para o ciclo que está terminando


Pegue seu diário. Antes de escrever intenções para aquilo que virá, comece pelo que já aconteceu. Você pode utilizar algumas perguntas como ponto de partida: como me sinto em relação aos últimos meses? O que aprendi? O que perdi? O que ganhei? O que me surpreendeu? Existe alguma coisa que ainda estou tentando manter mesmo percebendo que já não faz sentido? Que parte de mim mudou desde o último inverno?


Não existe necessidade de responder a todas as perguntas. Algumas podem não provocar nada e uma única pergunta pode ocupar várias páginas. Eu gosto particularmente da pergunta: o que estou pronta para deixar de carregar? Às vezes pensamos em desapego apenas como abandonar objetos, relações ou situações externas, mas podemos estar carregando expectativas, uma maneira antiga de nos perceber, uma cobrança, um hábito, uma ideia sobre como alguma coisa deveria ter acontecido ou até um objetivo que já não faz mais sentido. O ritual não precisa resolver essas questões. A escrita pode simplesmente ajudar a enxergá-las.


Um gesto simbólico de desapego


Depois dessa reflexão, escreva em outra folha aquilo que você gostaria de deixar para trás ou transformar. Você pode escolher uma única palavra, escrever algumas frases ou fazer uma lista. O importante é que aquilo represente alguma coisa que você conscientemente não quer continuar alimentando da mesma maneira.


Você pode escolher queimar esse papel, mas isso é completamente opcional. Se decidir fazê-lo, faça apenas em um recipiente apropriado e em condições realmente seguras. Você também pode simplesmente rasgar o papel, descartá-lo ou guardá-lo se sentir que ainda quer retornar àquela reflexão. O símbolo não precisa ser dramático para funcionar. Para mim, o gesto importante está em reconhecer conscientemente: isso existiu, isso fez parte do meu caminho, mas talvez não precise continuar ocupando o mesmo lugar.


Depois do desapego, pergunte o que quer cultivar


Só depois dessa etapa gosto de direcionar o olhar para aquilo que quero construir. Agora as perguntas mudam. O que é realmente importante para mim neste momento? O que valorizo? O que quero trazer para a luz nos próximos meses? Que projeto desejo continuar? Que hábito quero cultivar? O que precisa nascer ou renascer em mim para que eu consiga atravessar o próximo ciclo de uma maneira mais coerente comigo?


Observe que existe uma diferença entre desejo e intenção. Podemos desejar dezenas de coisas. Uma intenção pede algum tipo de relação com aquilo que depende de nós. Por isso, em vez de criar uma lista enorme, eu escolheria poucas intenções. Duas ou três já são suficientes.


Tente escrevê-las de maneira concreta. Se escrever apenas “quero cuidar mais de mim”, pergunte como isso aparece na vida prática. Significa dormir mais cedo? Retomar a terapia? Praticar Yoga três vezes por semana? Ter uma tarde sem compromissos? Aprender a dizer não para determinadas situações? Quanto mais específica for a intenção, mais fácil será reconhecer de que maneira você pode participar dela.


A água como símbolo de integração


Coloque um copo de água à sua frente. Depois de escrever suas intenções, leia-as devagar. Você pode fazer isso silenciosamente ou em voz alta. Antes de beber, fique alguns instantes olhando para a água e percebendo o que acabou de escrever. Não é necessário acreditar que a água vai adquirir propriedades especiais ou que beber aquele copo fará seus desejos acontecerem. Para mim, o gesto é simbólico.


Primeiro escrevemos e pensamos. Agora fazemos um pequeno gesto físico para marcar que aquilo não ficará apenas no papel. Beba a água lentamente como uma maneira de encerrar essa etapa e trazer a atenção novamente para o corpo.


Fechando o ritual


Coloque o diário de lado e volte a observar a chama. Feche os olhos por alguns instantes e leve novamente a atenção para a respiração. Perceba como está o corpo depois da prática e da escrita. Talvez você se sinta diferente, talvez não. Não existe uma sensação específica que precise acontecer para que o ritual tenha sido válido.


Se quiser, repita mentalmente suas intenções uma última vez. Depois, una as mãos diante do peito e reconheça o ciclo que está terminando e aquele que começa a se abrir. Gosto de agradecer tanto aquilo que foi agradável quanto aquilo que me desafiou, sem a necessidade de romantizar as dificuldades. Algumas experiências simplesmente foram difíceis. Ainda assim, posso reconhecer que fizeram parte do caminho que me trouxe até aqui. Apague a vela quando estiver pronta.


Se você quiser permanecer um pouco mais em silêncio, também pode seguir com a Meditação da Luz Interior para o Solstício de Inverno, que complementa bem esse momento de recolhimento.


A luz começa a retornar


O que mais gosto no Solstício de Inverno é justamente essa imagem: chegamos à noite mais longa e, a partir dali, a luz começa lentamente a ocupar um pouco mais de espaço a cada dia. Não acontece de uma vez.


Talvez por isso eu goste tanto dessa simbologia para nossas próprias mudanças. Algumas decisões importantes não produzem imediatamente uma vida completamente diferente. Uma intenção pode começar pequena. Um hábito pode precisar de semanas para encontrar espaço. Algumas coisas que queremos transformar ainda vão aparecer muitas vezes.


Mas existe um momento em que começamos. Para mim, o ritual do Solstício de Inverno é esse momento de parar, observar e escolher conscientemente o que quero continuar alimentando.


Não vejo a troca de estação como uma promessa de que tudo ficará mais leve daqui para frente. O inverno ainda está apenas começando. Mas existe alguma coisa bonita em saber que justamente quando chegamos à maior escuridão do ciclo, o movimento da luz já começou. E talvez possamos fazer o mesmo: respeitar os momentos de recolhimento, olhar com mais honestidade para aquilo que precisa terminar e, aos poucos, abrir espaço para o que queremos ver crescer.

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