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Autonomia no Yoga: por que a prática não deve criar dependência da professora

27 de mai.
10 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.

Existe uma ideia bastante difundida de que uma boa aula de Yoga é aquela em que a professora conduz tudo o tempo inteiro, corrige cada detalhe, antecipa cada movimento e mantém o aluno permanentemente amparado por instruções externas. E eu entendo por que isso pode ser interpretado como atenção e cuidado. Principalmente no início da prática, o aluno realmente precisa de bastante orientação. Ele ainda está conhecendo as posturas, as transições, os acessórios, a linguagem da aula e até as próprias possibilidades dentro daquele contexto.


O que eu não acredito é que essa relação precise permanecer exatamente igual depois de meses ou anos.


Para mim, uma das coisas mais importantes que o Yoga pode desenvolver é justamente a capacidade de levar o olhar para dentro. Aos poucos, a pessoa deixa de depender apenas das referências externas e começa a perceber também o que acontece no próprio corpo, na respiração, na atenção e na maneira como responde à prática. E, se eu ocupo cada segundo da aula dizendo o que fazer, o que sentir, quando mudar, como organizar e qual escolha tomar, posso acabar dificultando justamente essa construção.


Não quero que o aluno deixe de precisar de uma professora. Eu mesma continuo aprendendo com outros professores e valorizo profundamente a transmissão do conhecimento. O que quero é que a relação com a professora não substitua a relação do aluno consigo mesmo.


Professora orientando alunos durante uma aula de Yoga

Autonomia não significa ausência de orientação


Quando falo em autonomia, não estou falando de deixar cada pessoa fazer qualquer coisa durante uma aula. Uma prática coletiva continua tendo uma estrutura, uma intenção e uma condução. A professora continua ensinando técnica, explicando, observando, demonstrando, corrigindo quando necessário e oferecendo referências para que o aluno consiga compreender aquilo que está sendo proposto.


A diferença está no que fazemos com esse conhecimento ao longo do tempo.


Nas primeiras aulas, talvez eu precise mostrar exatamente onde colocar um bloco. Depois de repetirmos aquela adaptação algumas vezes, posso lembrar o aluno de uma possibilidade que ele já conhece. Mais adiante, talvez ele nem precise que eu diga nada. Ele reconhece a situação, pega o bloco e utiliza aquilo que aprendeu.


Para mim, esse movimento é importante porque mostra que o ensinamento não ficou restrito àquele comando que eu dei numa terça-feira específica. O aluno incorporou uma informação e começou a utilizá-la dentro da própria prática.


Autonomia, portanto, não é ausência da professora. É o aluno começar a participar mais ativamente da experiência que a professora está ajudando a construir.


A prática também é aprender a perceber


Às vezes falamos “escute o seu corpo” como se essa fosse uma habilidade automática. Não é.


Um aluno iniciante pode não saber diferenciar determinadas sensações. Pode não conhecer uma adaptação, pode não entender por que um bloco ajudaria naquela postura ou talvez nem tenha repertório suficiente para perceber que existe outra possibilidade.


Por isso, autonomia precisa ser ensinada.


Eu posso dizer onde colocar o pé, mas também posso ensinar o aluno a observar o que muda quando ele modifica aquela posição. Posso oferecer duas variações e explicar quais são as diferenças entre elas. Posso mostrar uma adaptação e explicar o motivo de utilizá-la, em vez de apenas dizer “faça assim”.


Existe uma diferença importante entre dar uma instrução e oferecer uma referência que a pessoa poderá utilizar novamente.


Quanto mais o aluno entende o que está fazendo, mais condições ele tem de observar a própria experiência com algum critério.


Svadhyaya: o autoestudo também acontece durante a prática


É aqui que svadhyaya, o autoestudo, se torna muito importante para a maneira como eu penso o ensino de Yoga.


Svadhyaya faz parte dos niyamas apresentados nos Yoga Sutras de Patañjali e costuma ser traduzido como autoestudo ou estudo de si. Dentro de uma prática, para mim, ele aparece quando o aluno não está apenas executando uma sequência, mas também observando como participa dela.


Não significa transformar cada postura numa análise psicológica. Eu já escrevi aqui no blog sobre como observar um aluno não significa interpretar sua personalidade ou concluir que determinada dificuldade física representa algum problema emocional.


O autoestudo de que estou falando é muito mais direto.


Como está a minha respiração agora? Estou colocando mais esforço do que essa postura pede? Percebi que comecei a prender a respiração? Estou olhando para os lados porque preciso de uma referência ou porque estou me comparando? Quando uma postura fica difícil, minha primeira reação é insistir, sair dela ou procurar outra possibilidade? Quando existe silêncio, consigo permanecer nele ou imediatamente procuro algum estímulo?


Essas observações pertencem ao praticante.


A professora pode abrir caminhos para esse tipo de investigação, mas não pode fazer esse trabalho no lugar dele.


Nem tudo precisa vir de fora


Existe uma parte inevitavelmente externa no aprendizado. A professora explica, demonstra, organiza uma sequência e oferece conhecimento. Mas o Yoga também propõe um movimento de interiorização.


Durante grande parte do nosso dia, nossa atenção já é solicitada pelo lado de fora. Estamos respondendo a mensagens, olhando telas, cumprindo tarefas, conversando, resolvendo coisas e reagindo ao ambiente. A prática pode oferecer um espaço diferente, em que a atenção começa a retornar para aquilo que está acontecendo internamente.


Por isso eu tenho cuidado para não preencher todos os espaços da aula com a minha própria voz.


Existem momentos em que a instrução é necessária e momentos em que o silêncio também ensina.


Se acabei de explicar uma postura, não preciso necessariamente continuar falando durante todos os segundos em que o aluno permanece nela. Posso permitir que ele experimente o que acabou de ouvir. Posso deixar que perceba a respiração, faça pequenos ajustes e observe o que está acontecendo sem que uma nova informação chegue a cada instante.


Para mim, esse espaço também faz parte da condução.


O professor não precisa desaparecer para o aluno olhar para dentro


Criar autonomia não é se ausentar.


Essa diferença é importante porque seria muito fácil transformar esse discurso numa justificativa para falta de didática: “O aluno precisa se escutar, então eu não preciso orientar.”


Não é isso.


Para conseguir levar a atenção para dentro, principalmente no início, a pessoa precisa de boas referências externas. É muito difícil observar uma experiência que ainda não conseguimos compreender.


A professora oferece essas referências.


Ela ensina, demonstra, corrige, adapta, responde perguntas e observa. Só que também sabe quando recuar um pouco para que o aluno tenha tempo de processar aquilo que recebeu.


Eu gosto de pensar que ensino e experiência precisam coexistir. Se existe apenas experiência sem conhecimento, o aluno pode não ter recursos suficientes para praticar. Se existe apenas instrução sem espaço, ele pode passar a aula inteira respondendo à professora sem realmente perceber a si mesmo.


Corrigir o tempo todo pode dificultar esse processo


Esse é um dos motivos pelos quais eu também não corrijo o aluno o tempo inteiro durante a prática de Yoga.


Se cada pequena diferença recebe imediatamente uma intervenção minha, o aluno pode começar a praticar esperando constantemente uma avaliação externa. Ele faz uma postura e olha para mim para descobrir se está certo. Faz uma escolha e espera que eu aprove. Muda alguma coisa e imediatamente procura minha reação.


Isso é completamente compreensível no começo, mas eu não quero fortalecer essa relação indefinidamente.


Às vezes já ensinei determinada orientação algumas vezes e posso esperar alguns segundos para ver se a pessoa se lembra. Muitas vezes, ela se lembra.


Às vezes uma adaptação já faz parte do repertório daquele aluno e ele não precisa esperar que eu diga novamente.


Escolher quando intervir também faz parte da minha didática.


Os acessórios são uma forma muito simples de perceber essa autonomia


Blocos, faixas, almofadas e mantas são um exemplo bastante concreto.


Se o aluno só pega um bloco quando a professora manda, ele pode aprender que o acessório é algo que alguém de fora determina que ele precisa usar. Mas, quando explicamos para que aquele recurso serve e mostramos diferentes possibilidades, ele começa a reconhecer sozinho algumas situações em que o bloco pode ajudá-lo.


Eu gosto quando isso começa a acontecer.


Não porque o aluno deixou de precisar de mim, mas porque alguma coisa que eu ensinei passou a fazer parte do repertório dele.


O mesmo acontece com adaptações. Um aluno pode ter aprendido comigo uma alternativa para uma postura que costuma incomodar seu joelho. Nas primeiras vezes, eu relembro. Depois de algum tempo, ele já sabe o que fazer.


Esse tipo de aprendizado parece pequeno, mas é exatamente assim que a autonomia vai sendo construída.


Descansar também exige autonomia


Outro exemplo aparece quando alguém decide descansar.


É muito comum uma professora dizer “se precisar, pode parar”, enquanto a turma continua praticando. Só que nem sempre o aluno realmente sente que pode fazer isso.


Ele olha para os lados, percebe que ninguém parou e continua, mesmo querendo sair da postura.


A autonomia também depende da maneira como a professora reage quando alguém escolhe uma opção diferente.


Se eu digo que descansar é uma possibilidade, mas toda vez que um aluno descansa vou imediatamente perguntar o que aconteceu, posso transformar aquela escolha em algo excepcional. É claro que, dependendo da situação, eu vou querer saber se existe dor ou algum problema. Mas nem toda pausa significa que alguma coisa deu errado.


Às vezes a pessoa apenas decidiu que, naquele momento, era suficiente.


E aprender a reconhecer esse momento também faz parte da prática.


Repetição ajuda o aluno a construir repertório


Existe uma pressão para que professores criem aulas sempre completamente diferentes. Novas sequências, novas transições, novas posturas e novas experiências.


Mas repetição também ensina.


Quando um aluno reencontra determinadas posturas, adaptações ou movimentos, ele começa a reconhecê-los. Aquilo que na primeira vez dependia inteiramente da minha explicação passa a ser familiar.


É por isso que eu não acredito que uma boa professora precise inventar uma prática inédita toda semana. No artigo sobre como montar uma aula de Yoga, falei também sobre a importância de planejamento que permita repetição e aprendizagem.


A repetição permite que o aluno compare experiências, perceba diferenças e recupere informações que já aprendeu.


E esse processo também favorece svadhyaya, porque existe algo muito interessante em encontrar novamente uma postura conhecida e perceber que a experiência de hoje não é exatamente igual à de uma semana atrás.


O corpo pode estar diferente. A atenção pode estar diferente. A respiração pode estar diferente.


A postura é a mesma. A experiência não necessariamente é.


Demonstrar menos também pode ensinar


A demonstração é extremamente útil, principalmente para iniciantes. Quem ainda não conhece a linguagem da prática muitas vezes compreende um movimento muito mais rapidamente quando consegue vê-lo.


Mas também observo quanto os alunos passam a depender dessa referência.


Se faço absolutamente tudo junto com a turma, alguns praticantes continuam olhando para mim antes de cada movimento mesmo depois de meses de aula.


Em determinados momentos, então, eu escolho demonstrar e depois sair da postura para observar. Em outros, conduzo apenas pela voz e vejo se a turma já compreende aquela transição.


Isso não é um teste.


É uma maneira de perceber se o conhecimento já começou a sair da minha demonstração e fazer parte do repertório dos alunos.


É também uma das razões pelas quais eu não faço a prática inteira junto com a turma. Se passo toda a aula vivendo a minha própria prática, além de observar menos os alunos, continuo sendo a referência visual o tempo inteiro.


Em algum momento, eu quero que eles consigam ouvir uma instrução e encontrar o movimento no próprio corpo.


A autonomia também aparece nas perguntas


Um aluno perguntar “está certo?” não é um problema. Muitas vezes é uma pergunta necessária.


Mas, ao longo do tempo, gosto quando outras perguntas começam a aparecer.


“Posso usar aquela adaptação que fizemos na outra aula?” “Hoje essa variação está desconfortável. Tem outra possibilidade?” “Quando faço dessa maneira sinto uma coisa diferente. É essa a proposta?”


Existe uma mudança de qualidade aí.


O aluno não está apenas pedindo aprovação. Ele está trazendo informações da própria experiência para a conversa.


Isso é muito rico para uma professora, porque me permite ensinar a partir daquilo que a pessoa está realmente percebendo.


Levar o olhar para dentro não significa interpretar tudo


Também quero deixar essa distinção clara porque existe, no Yoga, uma tendência de transformar toda experiência corporal em uma interpretação sobre a vida.


Uma pessoa sente dificuldade numa postura e alguém conclui que ela tem dificuldade de “se entregar”. Um aluno faz muito esforço e isso rapidamente vira uma explicação sobre como ele vive. Alguém fica inquieto no Savasana e imediatamente aparece uma interpretação sobre ansiedade ou incapacidade de desacelerar.


Não é isso que quero dizer quando falo de levar o olhar para dentro.


Eu não preciso explicar o aluno para ele.


A auto-observação pode acontecer sem que cada sensação ganhe uma narrativa.


Às vezes perceber “estou prendendo a respiração” já é suficiente. A pessoa não precisa descobrir naquele momento o que isso “significa sobre sua vida”.


Svadhyaya não precisa se transformar numa interpretação constante.


A relação com a professora também precisa preservar autonomia


Essa discussão não fica restrita ao tapete.


Quando um aluno confia muito na professora, existe a possibilidade de começar a colocá-la num lugar de autoridade que ultrapassa a prática. A pessoa passa a pedir opinião sobre escolhas pessoais, relacionamentos, trabalho e outras questões que não pertencem necessariamente àquela relação.


Foi por isso que escrevi também Seu professor de Yoga não é seu terapeuta.


Para mim, preservar a autonomia do aluno inclui reconhecer esses limites.


Posso ser uma professora importante na vida de alguém sem precisar me transformar na pessoa que decide o que ele deve fazer fora da aula.


O ensino deveria ampliar a capacidade da pessoa de perceber e refletir, e não concentrar cada vez mais poder na figura da professora.


Autonomia não significa que o aluno deixa de precisar de professores


Eu continuo sendo aluna.


Continuo estudando, recebendo ensinamentos, ouvindo outros professores e aprendendo com pessoas que têm experiências diferentes das minhas.


Por isso, quando falo em autonomia, não estou defendendo uma espécie de independência em que ninguém mais precisa aprender com ninguém.


Uma relação saudável com um professor pode durar muitos anos.


O que muda é a qualidade dessa relação.


A professora continua oferecendo conhecimento e o aluno continua aprendendo, mas ele também traz uma prática que amadureceu. Conhece algumas adaptações, reconhece limites, sabe fazer perguntas, consegue perceber diferenças e não depende de uma voz externa para cada pequena decisão.


Para mim, isso não enfraquece a relação professor-aluno.


Torna essa relação mais madura.


O objetivo é que o aluno participe cada vez mais da própria experiência


Eu gosto quando um aluno pega o acessório que precisa sem esperar minha ordem. Quando lembra de uma adaptação que aprendemos há meses. Quando descansa porque percebeu que precisava. Quando escolhe conscientemente entre duas possibilidades que ofereci. Quando consegue permanecer alguns instantes numa postura sem olhar para mim procurando confirmação.


Mas, acima de tudo, gosto quando percebo que aquela pessoa começa a desenvolver uma atenção própria durante a prática.


Porque é aí que a autonomia deixa de ser apenas saber fazer algumas coisas sozinho.


Ela passa a ter relação com a própria proposta do Yoga.


A professora pode abrir caminhos, ensinar técnicas, oferecer referências e criar condições para que a prática aconteça. Mas existe uma parte da experiência que sempre pertence ao praticante.


Ninguém pode respirar por ele. Ninguém pode perceber por ele. Ninguém pode fazer svadhyaya por ele.


Em algum momento, o olhar precisa começar a fazer esse movimento de fora para dentro.


E talvez uma das tarefas mais bonitas de quem ensina Yoga seja justamente saber acompanhar essa passagem: estar presente o suficiente para ensinar e, ao mesmo tempo, não ocupar tanto espaço a ponto de impedir que o aluno comece a se encontrar na própria prática.

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