Dicas para professores de Yoga: o que eu gostaria de ter sabido quando comecei a dar aulas
Atualizado: 29 de ago.
Quando terminei minha formação em Yoga e comecei a dar aulas, eu me sentia bastante insegura. Acho que essa é uma experiência comum para quem sai de uma formação: você estudou, praticou, aprendeu posturas, filosofia, técnicas respiratórias, talvez tenha feito algumas práticas de ensino, mas de repente existe uma turma na sua frente e é você quem precisa conduzir aquela hora inteira.
Com o tempo, percebi que uma formação prepara a base, mas muita coisa sobre ser professora a gente aprende realmente dando aula. É na sala que você descobre como explicar uma postura para alguém que não entendeu a primeira instrução, como adaptar aquilo que tinha planejado, como lidar com pessoas muito diferentes dentro da mesma turma, como organizar sua rotina e até como transformar o Yoga em um trabalho que seja sustentável financeiramente.
Este texto foi publicado originalmente alguns anos atrás com seis dicas para professores de Yoga. Hoje, depois de mais tempo ensinando, coordenando professores e administrando um estúdio, eu acrescentaria várias coisas àquela lista. Algumas eu gostaria muito que alguém tivesse me dito quando comecei.

Comece a dar aula antes de se sentir completamente pronta
A primeira dica do texto original continua sendo uma das coisas em que mais acredito: você precisa começar a dar aula. Não porque estudo e formação não sejam importantes, muito pelo contrário, mas porque existe um tipo de conhecimento que só aparece quando você começa a ensinar pessoas reais.
No início, é comum achar que precisa estudar mais um pouco antes de começar. Fazer outro curso, decorar mais nomes em sânscrito, dominar mais posturas, preparar sequências melhores. O problema é que a sensação de estar totalmente pronta talvez nunca chegue. A segurança que eu tenho hoje não veio de ter encontrado algum momento em que finalmente soube tudo o que precisava saber. Veio de ter dado muitas aulas, observado muitas turmas, cometido erros, feito ajustes e percebido o que funcionava.
Isso não significa ensinar aquilo que você não conhece ou fingir segurança diante de um assunto que ainda não domina. Significa reconhecer que ensinar também faz parte da formação de uma professora.
Continue sendo aluna
Antes de trabalhar exclusivamente com Yoga, eu frequentei muitos estúdios, pratiquei com professores diferentes e experimentei diferentes formas de condução. Eu observava bastante o que acontecia nas aulas: o que me fazia compreender melhor uma postura, como aquele professor organizava a sequência, como usava a voz, quanto demonstrava, como lidava com os alunos e até o que me incomodava.
Continuar praticando com outros professores depois de começar a ensinar também é importante. Quando passamos muitas horas da semana ocupando o lugar de professora, existe o risco de começar a olhar para toda prática como trabalho. Voltar a ser aluna lembra a gente de como é receber uma instrução, não entender alguma coisa de primeira, precisar de uma adaptação, gostar de determinado jeito de conduzir ou perceber que uma explicação poderia ter sido mais clara.
Você não precisa copiar outros professores. Aliás, com experiência, justamente o contrário acontece: você começa a entender o que combina e o que não combina com a professora que está se tornando.
Aprenda a olhar para a turma
No começo, boa parte da nossa atenção fica presa na própria aula. A gente está tentando lembrar qual postura vem depois, quais instruções precisa dar, quanto tempo falta e se aquela sequência que preparou vai caber em sessenta minutos. Isso é natural, mas existe um momento em que a atenção precisa começar a sair do planejamento e ir para as pessoas.
Uma das habilidades mais importantes que desenvolvi dando aulas foi observar uma turma. Perceber quando as pessoas não entenderam uma instrução mesmo que ninguém tenha feito uma pergunta, quando a sequência está exigindo mais do que eu imaginava, quando alguém precisa de outra opção ou quando existe uma energia completamente diferente daquela para a qual eu tinha planejado a aula.
É por isso que, quando explico como montar uma aula de Yoga, uma das primeiras coisas que considero é a turma que vai receber aquela prática. Uma aula pode estar perfeita no papel e ainda assim precisar mudar quando os alunos chegam.
Não prepare uma aula para provar quanto você sabe
Essa é uma armadilha muito fácil no começo. Você aprende muitas coisas durante uma formação e quer usar tudo: asanas, pranayama, mantra, filosofia, mudra, meditação, uma sequência diferente, uma postura mais avançada. Existe uma vontade de entregar uma aula muito completa e, às vezes, também de mostrar que você sabe conduzir tudo aquilo.
Só que o aluno não precisa receber todo o seu repertório em uma hora.
Uma aula simples e coerente costuma funcionar muito melhor do que uma aula cheia de técnicas que não conversam entre si. Antes de escolher as posturas, eu prefiro pensar no objetivo da prática e no que quero proporcionar para aquela turma. Depois disso, escolho o que realmente precisa entrar. Foi exatamente por isso que também passei a trabalhar com temas para aula de Yoga de uma forma mais simples: o tema organiza a experiência, mas não precisa transformar cada postura em uma metáfora.
Você não precisa criar uma aula completamente nova toda semana
No início eu também achava que precisava estar sempre inventando alguma coisa. Com o tempo, percebi que repetir, revisar e adaptar uma sequência faz parte do trabalho de ensinar.
Uma aula que funcionou bem pode ser usada novamente. Você pode mudar uma parte, experimentar outra transição, adaptar para uma turma diferente ou simplesmente repetir a sequência e observar coisas que não tinha percebido na primeira vez. Os próprios alunos também não vivem a mesma prática da mesma maneira todas as vezes.
Ter repertório não significa possuir centenas de sequências arquivadas. Significa conhecer suficientemente aquilo que você ensina para conseguir modificar quando necessário.
Não tente corrigir tudo
Quando começamos a ensinar, podemos ficar muito preocupadas em observar se todo mundo está fazendo as posturas “certo”. Isso pode transformar a aula em uma sequência quase interminável de correções.
Hoje eu tenho uma visão bem diferente. Existem situações em que eu intervenho, principalmente quando existe uma questão de segurança ou quando uma orientação pode realmente melhorar a experiência daquele aluno. Mas nem toda diferença precisa ser corrigida e nem todo corpo precisa chegar à mesma forma.
Eu já escrevi aqui no blog sobre por que eu não corrijo o aluno o tempo todo durante a prática de Yoga, porque acredito que parte do nosso trabalho também é permitir que a pessoa desenvolva percepção e autonomia. O professor precisa aprender não apenas a corrigir, mas também a decidir quando uma correção é realmente necessária.
Crie limites profissionais desde o começo
Dar aulas de Yoga cria um tipo de proximidade muito particular com os alunos. As pessoas conversam com você antes e depois da prática, contam coisas da vida, falam sobre dores, dificuldades e momentos delicados. É importante saber acolher sem assumir funções que não pertencem ao papel de professora.
Limite também aparece em situações muito práticas. Em que horário você responde mensagens? O aluno pode escrever no seu número pessoal a qualquer momento? Como funcionam cancelamentos? O que acontece quando alguém falta? Você abre exceção toda vez que uma pessoa pede?
Quanto mais tempo você trabalha com atendimento, mais percebe que regras claras evitam muitos desgastes. Elas não deixam o trabalho menos acolhedor. Pelo contrário: ajudam a construir uma relação em que professora e aluno sabem o que podem esperar um do outro. Esse tema também aparece no texto Seu professor de Yoga não é seu terapeuta, em que aprofundo melhor essa diferença de papéis.
Entenda que o aluno também é cliente
Eu sei que algumas pessoas têm resistência a essa frase quando falamos de Yoga, mas, se você cobra por uma aula, existe também uma relação comercial. Reconhecer isso não diminui o Yoga e não significa tratar o aluno como um número.
Significa entender que existe um serviço sendo prestado e que a experiência desse aluno começa antes de ele entrar no tapete. Como ele recebe informações? É fácil entender horários e valores? Alguém responde quando ele entra em contato? A aula começa no horário? Existe organização? O que acontece quando surge um problema?
Ter cuidado com essas coisas também faz parte do trabalho de quem deseja viver profissionalmente do Yoga.
Não confunda preço com autoestima
No texto antigo eu dizia que a dificuldade de definir o valor de uma aula estava intimamente relacionada à autoestima. Hoje eu escreveria isso de outra forma.
Preço precisa de conta.
Claro que insegurança pode fazer uma professora cobrar menos do que gostaria, principalmente no começo. Mas o valor de uma aula não deve ser definido pela sensação subjetiva de “quanto eu acho que valho”. Você precisa considerar o tempo da aula, o tempo de preparação, deslocamento quando existe, custos envolvidos, impostos, taxas, materiais, quantidade de alunos que consegue atender, posicionamento, preços praticados no mercado e quanto precisa faturar para que aquele trabalho faça sentido.
Minha formação em Administração e Gestão Financeira me ajudou muito a olhar para o Yoga também por esse ângulo. Uma coisa é gostar de ensinar. Outra é construir uma atividade profissional que consiga pagar suas contas e continuar existindo.
Por isso, esse é um assunto que quero aprofundar cada vez mais aqui no blog: quanto cobrar, como calcular preço, como organizar as finanças e como entender a diferença entre faturamento e aquilo que realmente fica para você.
Construa uma rede com outros professores
Essa dica continua exatamente tão importante quanto era quando escrevi o primeiro texto. Professores de Yoga precisam de outros professores.
Você vai ficar doente algum dia. Vai querer viajar. Pode surgir uma emergência. Pode receber um convite para um trabalho que não consegue assumir e querer indicar alguém. Talvez precise de uma professora com experiência numa modalidade ou público que você não atende.
Ter uma rede de profissionais em quem confia facilita muito a vida. E essa relação precisa ser profissional também. Se alguém substitui a sua aula, combine valor, horário, responsabilidade e todas as informações que aquela pessoa precisa ter para assumir a turma.
Hoje, como dona de estúdio e trabalhando com uma equipe de professores, vejo ainda mais claramente o quanto essas relações fazem diferença.
Não tenha medo de dizer que não sabe
Existe uma pressão silenciosa para que o professor tenha resposta para tudo. Um aluno pergunta alguma coisa sobre anatomia, filosofia, uma dor específica, uma técnica que você nunca estudou e parece que, por estar na frente da turma, você deveria saber responder imediatamente.
Não deveria.
Eu prefiro dizer que não sei, que preciso pesquisar ou que aquele assunto não é da minha área do que improvisar uma resposta apenas para sustentar uma posição de autoridade. Uma professora não perde credibilidade quando reconhece um limite do próprio conhecimento. O problema é falar com segurança sobre aquilo que não conhece.
Ao mesmo tempo, essas perguntas podem mostrar onde você precisa estudar mais. Muitas coisas que fui aprofundando ao longo dos anos nasceram justamente de situações que apareceram nas minhas aulas.
Observe sua aula depois que ela termina
Uma das maneiras mais eficientes de melhorar como professora é prestar atenção no que acabou de acontecer. A sequência funcionou como você imaginava? Alguma parte demorou demais? Houve uma instrução que ninguém entendeu? Você falou demais? Demonstrou mais do que precisava? A turma respondeu bem a determinada proposta?
Esse tipo de observação constrói repertório muito mais do que simplesmente preparar outra aula do zero.
Com o tempo, você começa a conhecer melhor suas turmas, seu jeito de ensinar e até os erros que costuma repetir. E é justamente esse acúmulo de pequenas observações que vai transformando uma professora recém-formada em uma professora mais experiente.
Sua identidade como professora aparece com o tempo
Quando a gente começa, é muito fácil olhar para professores que admira e querer descobrir imediatamente qual é o próprio estilo. Só que identidade não precisa ser inventada antes de existir.
Ela vai aparecendo nas escolhas que você repete, nos assuntos que mais estuda, na maneira como explica, naquilo que considera importante numa sala de aula, nos alunos com quem gosta de trabalhar e até nas coisas que decide não fazer.
Hoje tenho opiniões sobre didática e condução que não tinha quando comecei. Algumas mudaram completamente ao longo dos anos porque a experiência me mostrou outra coisa. Para mim, isso faz parte do processo.
Se eu pudesse voltar para a professora que acabou de sair da formação, talvez essa fosse a principal coisa que eu diria: estude bastante, mas dê aula. Observe seus alunos, observe a si mesma ensinando, aprenda a lidar com o trabalho como profissão e permita que a experiência também seja sua professora.
Se você está começando a dar aulas de Yoga, me conta nos comentários: qual dessas questões tem sido mais difícil para você? Aqui no blog eu também estou reunindo outros conteúdos sobre didática, sala de aula, carreira e os bastidores de viver profissionalmente do Yoga.






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