O Yoga tradicional era uma prática masculina
Atualizado: 8 de set.
Quando olhamos para uma sala de Yoga hoje, especialmente no Ocidente, a cena parece quase natural: em geral, a maioria das praticantes é composta por mulheres. No meu próprio cotidiano como professora isso é muito evidente. As mulheres são maioria nas aulas, nos eventos, nas formações e também entre quem procura o Yoga como parte de uma rotina de cuidado, estudo e transformação pessoal.
Mas essa imagem tão familiar para nós está longe de representar a maior parte da história registrada do Yoga.
Durante séculos, grande parte do Yoga que chegou até nós por meio dos textos, das instituições ascéticas e das linhagens formais foi formulada, registrada e transmitida em ambientes predominantemente masculinos. Isso não significa que as mulheres simplesmente não existissem nessa história. Existiam. A questão é outra: quem aparece com mais frequência como praticante, mestre, autor, discípulo e referência nos registros que foram preservados?
Na maior parte das vezes, homens.
E entender isso ajuda a perceber o tamanho da transformação que aconteceu até chegarmos às salas de Yoga que conhecemos hoje.
O praticante de Yoga descrito nos textos era, em geral, um homem
Os registros antigos e medievais que chegaram até nós apresentam frequentemente figuras ascéticas que haviam se afastado, em diferentes graus, da vida social comum em busca de disciplina, libertação, poder espiritual e domínio da mente e do corpo.
O Yoga estava inserido em universos de renúncia, austeridade, tapas, disciplina dos sentidos, meditação e práticas que podiam ser extremamente exigentes.
É importante lembrar também que estamos falando de sociedades em que os espaços formais de estudo, autoridade religiosa e transmissão do conhecimento eram profundamente masculinizados.
Isso não quer dizer que nenhuma mulher tivesse acesso ao pensamento filosófico ou à vida espiritual indiana. Temos figuras femininas importantes em diferentes períodos, mulheres associadas ao conhecimento védico, filósofas, poetisas, ascetas, devotas e posteriormente praticantes ligadas a diferentes tradições.
A diferença está na proporção em que essas mulheres aparecem nos registros e, principalmente, em quem teve autoridade para escrever, sistematizar, preservar e transmitir aquilo que depois seria reconhecido como tradição.
Por isso, acho importante fazer uma distinção: a ausência de mulheres nos textos não deve ser confundida automaticamente com ausência de mulheres na prática.
Um texto também revela quem tinha voz suficiente para registrar aquela história.

O corpo presumido pelo Hatha Yoga também era muitas vezes masculino
Essa questão se torna ainda mais interessante quando olhamos para o desenvolvimento do Haṭha Yoga.
Como já escrevi em outros textos aqui no blog, o Haṭha Yoga medieval trabalha o corpo de maneira extremamente sofisticada. Respiração, mudrās, bandhas, manipulação das energias vitais e outras técnicas fazem parte desse universo, e āsana é apenas um dos elementos do método.
Só que existe um detalhe que hoje pode passar despercebido quando lemos esses textos: em diversos momentos, o corpo presumido pelo ensinamento é claramente um corpo masculino.
Isso aparece, por exemplo, na importância dada em determinadas tradições à conservação de bindu, frequentemente associado ao sêmen, e a práticas relacionadas à retenção seminal.
Não é um detalhe irrelevante.
Ele nos mostra que várias dessas técnicas foram elaboradas, explicadas e transmitidas a partir de preocupações fisiológicas e espirituais formuladas tendo o homem como praticante-modelo.
Isso não significa que mulheres fossem incapazes de praticar essas tradições. Existem referências femininas e algumas formulações que consideram também aspectos específicos do corpo da mulher.
Mas o contraste continua sendo evidente: dentro de grande parte do corpus textual que chegou até nós, o protagonismo masculino é enorme.

E as mulheres? Elas nunca estiveram completamente ausentes
Por isso, dizer que o Yoga tradicional era predominantemente masculino não significa contar uma história sem mulheres.
As tradições tântricas deixam isso particularmente claro.
O próprio termo yoginī tem uma história antiga e muito mais complexa do que o uso contemporâneo da palavra para designar simplesmente “uma mulher que pratica Yoga”. Dependendo do contexto, yoginīs podem aparecer como divindades femininas poderosas, figuras ligadas a cultos tântricos e também como mulheres iniciadas ou praticantes.
Além disso, diferentes períodos da história religiosa indiana registram mulheres devotas, ascetas, filósofas, poetisas e mestras.
Então eu não gosto da afirmação de que “mulheres não praticavam Yoga”.
Ela é simples demais.
O que podemos dizer é que as mulheres ocupam muito menos espaço na documentação e na tradição institucionalizada que chegou até nós como referência normativa do Yoga.
E essa diferença importa.
Durante muito tempo, a figura central era a do renunciante
Talvez uma das maiores diferenças entre o Yoga praticado hoje e muitos dos contextos em que ele foi desenvolvido esteja justamente em quem era o praticante idealizado.
Em várias tradições, essa figura era o asceta, o renunciante, alguém disposto a reorganizar radicalmente a própria vida em torno da busca espiritual.
Isso também ajuda a entender por que não faz sentido imaginar que uma aula contemporânea de Yoga seja simplesmente a reprodução intacta de uma prática realizada da mesma maneira há milhares de anos.
O repertório enorme de posturas, as sequências que conhecemos, a organização de uma aula coletiva, o uso terapêutico moderno do āsana e muitas das formas de ensino que hoje parecem completamente normais pertencem a uma história muito mais recente.
Não precisamos repetir aqui toda a discussão sobre Patañjali ou sobre o surgimento do Yoga postural moderno, porque já aprofundei esses temas em outros artigos. Para esta conversa, o que interessa é perceber que a transformação da prática também mudou profundamente quem podia ocupar o Yoga e em que tipo de vida ele passou a caber.
O Yoga moderno muda também quem pode praticar
Entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX, o Yoga atravessa um processo intenso de reformulação.
A Índia estava sob domínio britânico, movimentos nacionalistas ganhavam força e diferentes pensadores e professores indianos procuravam reorganizar e apresentar suas próprias tradições dentro de um mundo profundamente transformado pela modernidade.
O Yoga passa a circular por novos espaços. A cultura física ganha importância. A prática começa a ser sistematizada de outras maneiras. O contato com o Ocidente aumenta.
É nesse contexto que figuras como T. Krishnamacharya passam a ocupar um lugar fundamental no desenvolvimento do Yoga postural moderno.
Mas, para a história que estamos contando aqui, existe outra figura que me interessa ainda mais.

Indra Devi e a entrada feminina em um espaço que ainda era masculino
Indra Devi foi a primeira mulher discípula de Krishnamacharya.
Esse dado, por si só, diz bastante sobre o ambiente em que ela entrou.
Num primeiro momento, Krishnamacharya resistiu à ideia de ensiná-la. Ela era mulher e estrangeira, duas características que a colocavam fora do perfil de aluno que ocupava aquele espaço.
Depois, ele a aceitou.
E eu acho muito simbólico perceber o que acontece em seguida.
Indra Devi se tornaria uma das grandes responsáveis pela divulgação internacional do Yoga no século XX. Abriu uma escola em Xangai, depois ensinou em Hollywood e apresentou a prática a públicos que estavam muito distantes do universo masculino e ascético em que grande parte daquela tradição havia sido preservada.
Sua trajetória acompanha uma mudança enorme.
Pouco a pouco, o Yoga sai dos ambientes predominantemente masculinos de transmissão tradicional e começa a ocupar casas, estúdios, centros urbanos e o cotidiano de pessoas comuns.
E as mulheres entram nesse processo de maneira cada vez mais significativa.

Em algum momento, a proporção se inverteu
Essa talvez seja uma das transformações mais impressionantes da história moderna do Yoga.
O praticante presumido em grande parte das fontes pré-modernas era homem.
Hoje, em inúmeros contextos do Yoga global, entrar numa sala formada majoritariamente por mulheres parece absolutamente normal.
Não mudou apenas quem pratica.
Mudaram também os espaços onde se pratica, as razões pelas quais uma pessoa procura Yoga, a maneira como as aulas são construídas, a linguagem utilizada pelos professores e a relação do praticante com o próprio corpo.
Um caminho que esteve durante séculos muito ligado à renúncia, à austeridade e a figuras masculinas passou a caber no cotidiano de mulheres que trabalham, têm família, compromissos, responsabilidades e uma vida completamente inserida no mundo.
É uma transformação enorme.
Por que o Yoga encontrou tanto espaço entre as mulheres?
Aqui eu já saio um pouco da história documentada e entro naquilo que observo como professora.
Eu não acho que mulheres sejam naturalmente mais espirituais, mais sensíveis ou biologicamente mais próximas do Yoga. Não vejo sentido em criar uma espécie de essência feminina para explicar por que hoje somos maioria nas salas.
Mas consigo compreender por que a forma contemporânea da prática encontra tanta ressonância entre mulheres.
Existe uma quantidade enorme de exigências direcionadas à vida feminina. Trabalho, cuidado, família, aparência, saúde, relacionamentos, administração da casa, produtividade, disponibilidade emocional. Para muitas mulheres, parece existir sempre alguma coisa que ainda deveria estar sendo feita.
E uma prática que oferece tempo, atenção ao corpo, silêncio, respiração e a possibilidade de interromper temporariamente essa lógica pode ocupar um lugar muito particular.
Nesse sentido, o Yoga se tornou, para muitas mulheres, uma tecnologia de retorno a si.
Um espaço em que, por algum tempo, a atenção deixa de estar inteiramente voltada para aquilo que precisa ser entregue, resolvido ou cuidado fora e pode voltar para dentro.
Essa é uma leitura minha, construída também a partir daquilo que observo nas minhas aulas. Não é uma explicação universal para a presença feminina no Yoga moderno.
Mas eu vejo isso acontecer.
O Yoga mudou de corpo
É curioso perceber que essa transformação não apaga a história masculina do Yoga.
Ela acrescenta outro capítulo.
O corpo que ocupa o centro de uma sala contemporânea já não é necessariamente o corpo masculino do asceta ou do renunciante descrito em tantas fontes. Hoje encontramos mulheres jovens e idosas, grávidas, mães, mulheres que trabalham em escritórios, empreendedoras, mulheres que treinam musculação, mulheres em diferentes momentos da vida e com razões completamente distintas para chegar ao tapete.
Isso naturalmente transforma também a forma como o Yoga é ensinado.
Novas perguntas aparecem.
Novas necessidades aparecem.
E uma tradição que atravessa novos corpos também passa a ser lida a partir de experiências que antes dificilmente ocupavam o centro de seus textos.
A árvore cresceu para lados que seus primeiros jardineiros talvez nunca tivessem imaginado.
Hoje as mulheres também decidem como o Yoga será transmitido
Essa talvez seja a parte dessa história que mais me chama atenção.
Durante séculos, grande parte daquilo que foi registrado como Yoga foi escrita por homens, ensinada em ambientes masculinos e pensada a partir de corpos masculinos.
As mulheres não estavam completamente ausentes dessa história, mas raramente foram a voz dominante daquilo que acabou canonizado.
Hoje basta entrar em muitas salas de Yoga para perceber que alguma coisa mudou profundamente.
No meu próprio cotidiano como professora, a maioria das pessoas diante de mim é mulher.
São mulheres que estão praticando, estudando, ensinando, abrindo estúdios, produzindo conteúdo, formando professoras e escolhendo aquilo que continuarão transmitindo.
Isso significa que não mudamos apenas a demografia da prática.
Também passamos a participar ativamente da construção do que o Yoga será daqui para frente.
A árvore cresceu para lados que seus primeiros jardineiros talvez nunca tivessem imaginado.
O Yoga continua carregando uma história profundamente masculina.
Mas a história que estamos escrevendo agora já não é.






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