Por que eu não corrijo o aluno o tempo todo durante a prática de Yoga
Atualizado: 30 de ago.
Quando digo que não corrijo o aluno o tempo todo durante uma aula de Yoga, isso pode parecer, à primeira vista, falta de atenção. Como se eu simplesmente desse as instruções, deixasse cada pessoa fazer do jeito que quiser e não me preocupasse muito com o que está acontecendo na sala. Na prática, é quase o contrário. Para conseguir escolher quando não intervir, eu preciso estar olhando.
Eu observo bastante enquanto dou aula. Percebo quem entendeu uma instrução, quem está olhando para o lado porque se perdeu, quem encontrou uma adaptação que funciona, quem está tentando acompanhar uma proposta que talvez esteja difícil demais naquele momento e quem está fazendo algo diferente simplesmente porque aquele movimento se organiza de outra maneira no seu corpo.
O que eu não faço é transformar toda diferença que vejo em uma correção.
Ao longo dos anos ensinando Yoga, fui entendendo que existe uma diferença importante entre observar o aluno e procurar alguma coisa errada nele. Se eu entro na sala com a ideia de que meu trabalho é corrigir, provavelmente vou encontrar inúmeras oportunidades de intervenção durante uma única aula. Um pé poderia girar alguns graus, uma mão poderia mudar de lugar, um joelho poderia estar mais alinhado com determinada referência, um braço poderia subir um pouco mais. A questão que comecei a me fazer foi: essa intervenção é realmente necessária agora?
Essa pergunta mudou bastante a minha forma de ensinar.

Nem toda diferença precisa ser corrigida
Corpos diferentes não vão expressar uma postura exatamente da mesma maneira. Existem diferenças de proporção, mobilidade, experiência, força, histórico de movimento e muitas outras características que fazem com que uma mesma proposta apareça de formas diferentes numa turma.
Por isso, quando olho para uma sala com oito pessoas, não espero encontrar oito posturas visualmente idênticas.
Isso também significa que uma pessoa não estar igual à minha demonstração não é, por si só, um problema. A demonstração é uma referência para ajudar o aluno a compreender o que estou propondo, mas o meu corpo não deveria se transformar no molde que todos os outros corpos precisam reproduzir.
É uma coisa que considero especialmente importante com iniciantes. Quem está começando tende naturalmente a procurar referências externas porque ainda está aprendendo a linguagem da aula. O aluno olha para a professora, olha para o colega e tenta descobrir como aquela postura deveria parecer. Se eu reforço o tempo inteiro a ideia de que existe uma imagem específica que precisa ser reproduzida, posso acabar ensinando aquela pessoa a confiar muito mais na aparência da postura do que naquilo que está percebendo enquanto pratica.
Não corrigir o tempo todo não significa não ensinar técnica
Eu ensino técnica, explico posicionamentos, demonstro, repito instruções, ofereço adaptações e faço correções quando considero necessário. A diferença é que não acredito que ensinar técnica signifique interromper constantemente a experiência do aluno para ajustar cada detalhe possível.
Uma coisa é alguém ainda não ter entendido como organizar determinada postura e precisar de uma orientação. Outra é a pessoa já ter compreendido a proposta, estar praticando sem desconforto e eu continuar fazendo pequenas modificações apenas porque consigo enxergar algo que poderia ficar diferente.
Existem momentos em que uma correção é importante. Se um aluno relata dor durante uma postura, quero saber o que está acontecendo e propor outra possibilidade. Se percebo que alguém claramente não entendeu a instrução, vou explicar novamente. Se existe uma situação em que considero importante mudar a organização do movimento, também vou intervir. E, quando uma pessoa é nova e ainda não conhece a prática, naturalmente ofereço mais referências.
Mas existe também o momento de ensinar e depois recuar. Se acabei de explicar uma postura e o aluno está experimentando aquilo pela primeira vez, não preciso necessariamente entrar imediatamente com uma segunda, terceira e quarta instrução. Posso dar alguns instantes para que ele organize o que acabou de ouvir. Essa espera também faz parte do ensino.
Às vezes a turma mostra que a minha instrução precisa mudar
Existe outra coisa que considero muito importante: nem sempre são os alunos que precisam ser corrigidos. Às vezes sou eu que preciso explicar melhor.
Se dou uma instrução e metade da sala faz algo diferente do que eu tinha imaginado, não faz muito sentido caminhar pela turma corrigindo pessoa por pessoa sem antes considerar que talvez a minha fala tenha sido confusa.
Talvez eu tenha usado um termo que aqueles alunos não conhecem. Talvez tenha dado informação demais de uma vez. Talvez tenha demonstrado rápido. Talvez a transição que parecia muito clara quando planejei a aula não seja tão óbvia quando outra pessoa tenta executá-la.
Esse é um dos motivos pelos quais gosto tanto de observar enquanto ensino. A turma está me dando informações sobre a minha própria didática o tempo inteiro.
No texto O aluno quer ser visto, falei sobre isso: olhar para a turma não serve apenas para encontrar o que corrigir no aluno. Também serve para perceber se aquilo que eu estou fazendo como professora está funcionando.
Correção demais também pode atrapalhar
Imagine tentar aprender alguma coisa nova enquanto uma pessoa faz comentários sobre você a cada poucos segundos. Você coloca o pé e alguém muda. Mexe o braço e alguém ajusta. Respira e recebe outra instrução. Quando finalmente acha que entendeu, vem mais uma informação.
Mesmo quando todas essas orientações são tecnicamente válidas, existe um limite para quanto conseguimos processar de uma vez.
Por isso, eu gosto de escolher. Qual é a informação mais importante para essa pessoa naquele momento? É realmente necessário falar sobre cinco coisas diferentes ou uma orientação já seria suficiente?
Às vezes faço uma correção e espero. Quero ver o que acontece depois dela. Quero que o aluno tenha a oportunidade de experimentar aquela mudança antes que eu ofereça uma nova. Isso também ajuda a não transformar a prática numa tentativa constante de satisfazer o olhar da professora.
Eu não quero que o aluno pratique esperando minha aprovação
Existe uma situação que, para mim, é muito reveladora: o aluno faz alguma coisa e imediatamente olha para a professora procurando confirmação. “Está certo?”
É natural que isso aconteça, principalmente no começo. A pessoa ainda está aprendendo e quer saber se entendeu. O problema é quando, depois de muito tempo praticando, ela continua precisando dessa confirmação a cada movimento.
Se sempre que o aluno faz uma escolha eu apareço para validar ou modificar aquilo, posso contribuir para essa dependência sem perceber.
Aos poucos, eu quero que a pessoa desenvolva referências próprias. Que saiba reconhecer uma instrução, lembrar de adaptações que já aprendeu e perceber quando alguma coisa não está funcionando para ela naquele dia.
Isso não elimina a professora. Também não significa que cada pessoa passa a decidir sozinha qualquer coisa dentro de uma aula. Continuo conduzindo, ensinando e estabelecendo a estrutura da prática. Mas existe espaço para o aluno participar dessa experiência de maneira mais ativa. É justamente essa autonomia que me interessa desenvolver.
Alunos diferentes precisam de quantidades diferentes de orientação
Eu também não tenho uma regra do tipo “corrijo uma vez por aula” ou “não faço correções individuais”. Isso não faria sentido porque as pessoas são diferentes.
Um aluno que entrou hoje talvez precise de muito mais informação do que alguém que pratica comigo há três anos. Uma pessoa pode compreender melhor quando eu demonstro. Outra entende perfeitamente uma instrução verbal. Alguém pode precisar que eu me aproxime para explicar alguma coisa individualmente, enquanto outro aluno já conhece seu corpo e suas adaptações o suficiente para precisar de muito pouca intervenção.
Por isso, didática não é aplicar a mesma quantidade de atenção da mesma maneira para todos. Inclusive, no artigo sobre O aluno quer ser visto, escrevi que nem todo aluno quer ser visto da mesma forma. Eu acredito no mesmo quando falamos de correção. Existem pessoas que gostam de receber orientações individuais e outras que ficam muito constrangidas quando são mencionadas diante da turma. Conhecer os alunos também ajuda a perceber como orientar.
Eu prefiro corrigir a turma antes de expor uma pessoa
Se percebo que uma instrução pode ajudar várias pessoas, normalmente prefiro oferecê-la para toda a turma.
Em vez de dizer “Maria, seu pé está assim”, posso simplesmente lembrar todos de observar a posição dos pés. Se alguém parece ter se perdido numa transição, muitas vezes repito a demonstração para a sala inteira sem precisar anunciar que aquela pessoa não entendeu.
Existem situações em que a correção individual faz mais sentido, claro. Mas não vejo motivo para transformar toda orientação em exposição.
Para quem já pratica há bastante tempo, isso pode parecer um detalhe. Para um aluno novo, principalmente alguém inseguro ou que acredita não ter um corpo “bom para Yoga”, ser corrigido repetidamente na frente das outras pessoas pode tornar a experiência bastante desconfortável. Eu quero que o aluno aprenda, mas não preciso constrangê-lo para que isso aconteça.
A correção não precisa ser sempre física
Outra coisa que considero importante é lembrar que existem muitas formas de orientar um aluno. Posso usar uma instrução verbal, demonstrar novamente, oferecer um bloco, uma faixa ou outra adaptação, mudar a maneira como explico ou me aproximar e conversar brevemente com aquela pessoa.
Nem toda correção precisa significar colocar minhas mãos sobre o corpo do aluno e posicioná-lo.
O toque pode fazer parte da forma de ensinar de alguns professores e existem situações em que ele pode ser útil, desde que exista consentimento e clareza. Mas não acredito que tocar seja a única maneira de mostrar que uma professora está atenta à prática.
Muitas vezes uma boa instrução resolve mais do que tentar colocar manualmente o aluno numa determinada forma.
Segurança não é sinônimo de deixar todas as posturas iguais
Uma justificativa muito comum para corrigir bastante é a segurança, e eu concordo que segurança faz parte da nossa responsabilidade. Se observo uma situação que considero inadequada para aquela pessoa ou se ela relata dor, não vou ignorar simplesmente porque acredito em autonomia.
Mas também tenho cuidado para não usar a palavra “segurança” como justificativa para transformar toda preferência de alinhamento em regra absoluta.
Nem toda diferença estética representa um problema e nem tudo aquilo que aprendemos como uma forma “ideal” precisa aparecer exatamente igual em todos os corpos.
Por isso, quando intervenho, tento saber o motivo da intervenção. Estou mudando isso porque existe uma razão importante ou porque aquela postura não está parecida com a imagem que tenho na minha cabeça? Essa pergunta me ajuda muito.
Também existe um ego do professor na correção
Essa é uma parte menos confortável de admitir, mas acho importante.
Quando começamos a estudar muito, queremos usar aquilo que aprendemos. Fizemos uma formação, estudamos anatomia, alinhamento, biomecânica, ajustes e várias técnicas de ensino. Entramos na sala e começamos a enxergar muitas coisas.
Existe uma tentação de mostrar esse conhecimento. Corrigir dá uma sensação muito concreta de que estamos trabalhando. Eu me aproximo, modifico alguma coisa, explico um detalhe e imediatamente pareço estar exercendo o meu papel de professora.
Só que presença profissional não se mede pela quantidade de intervenções que faço durante sessenta minutos. Às vezes o trabalho mais difícil é justamente observar alguma coisa e decidir que não preciso interferir. Isso exige segurança também da professora.
Uma correção precisa ter um propósito
Talvez essa seja a maneira mais simples de resumir a minha forma de pensar. Antes de corrigir, eu tento saber por que estou corrigindo.
Quero ajudar o aluno a compreender melhor a postura? Existe algum desconforto? Ele não entendeu a proposta? Aquela mudança vai facilitar a experiência? Existe uma informação importante que ele ainda não recebeu?
Se existe um motivo, eu intervenho. Se a única resposta é “porque eu faria diferente” ou “porque poderia ficar mais bonito”, talvez eu não precise.
Essa diferença ficou ainda mais clara para mim ao longo dos anos porque comecei a perceber que dar aula não significa manter o aluno sob intervenção constante. Meu trabalho inclui ensinar, demonstrar, orientar e corrigir, mas inclui também observar, esperar e permitir que a pessoa experimente aquilo que acabou de aprender.
Quero que o aluno aprenda a praticar, e não apenas a seguir uma professora
Esse ponto se conecta diretamente com o que escrevi sobre autonomia no Yoga. Quanto mais tempo uma pessoa pratica, mais quero que ela desenvolva recursos para participar da própria prática sem depender de mim para cada pequena decisão.
Isso significa saber que pode usar um bloco sem esperar que eu mande, reconhecer uma adaptação que já funciona para seu corpo, descansar quando precisa, perceber quando não entendeu alguma coisa e fazer uma pergunta.
A professora continua ali. A estrutura continua existindo. A orientação continua existindo. Só não existe a necessidade de controlar cada detalhe do que acontece no tapete.
Por isso eu não corrijo o aluno o tempo todo. Não porque a técnica não importe e muito menos porque eu não esteja prestando atenção. Eu não corrijo o tempo todo porque acredito que uma intervenção precisa ter função. Quero ensinar o suficiente para que o aluno compreenda o que estamos fazendo e, ao mesmo tempo, deixar espaço suficiente para que ele realmente pratique.
Para mim, uma boa aula não é aquela em que o professor conseguiu encontrar e corrigir o maior número possível de coisas. É aquela em que ele soube ensinar, observar e escolher bem quando sua intervenção realmente faria diferença.






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