Por que eu não corrijo o aluno o tempo todo durante a prática de Yoga
- Nathalia Morgana

- há 6 horas
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No meu jeito de ensinar Yoga, existe uma escolha muito consciente que, para algumas pessoas, pode até soar incomum à primeira vista: eu não costumo corrigir o aluno o tempo todo durante a prática. E isso não acontece por falta de atenção, por descuido ou por ausência de método. Pelo contrário. Essa escolha faz parte da essência do meu trabalho e da forma como eu compreendo o Yoga.

Existe uma palavra dentro da tradição que traduz muito bem isso: Anubhava. De forma simples, ela pode ser entendida como experiência direta, vivência real, conhecimento que não vem apenas da teoria, nem da escuta, mas daquilo que é experimentado no próprio corpo, na própria respiração e na própria consciência. Talvez seja justamente por isso que eu nunca tenha desejado construir uma prática em que o aluno apenas reproduz comandos, aguarda instruções a cada instante ou depende da voz da professora para sentir que está praticando “do jeito certo”. O que me interessa não é formar alunos obedientes, mas praticantes presentes.
Eu não quero que os alunos se tornem dependentes de mim, da minha condução ou das minhas intervenções constantes. O que eu quero, de fato, é que eles desenvolvam autonomia dentro da prática e se tornem protagonistas da própria experiência. Para mim, o Yoga perde uma parte importante da sua potência quando o aluno entra na sala apenas para receber comandos, executar movimentos e esperar aprovação externa. Existe algo muito precioso quando a pessoa começa a sustentar a própria atenção, a observar o que sente, a perceber como respira, como reage, onde resiste, onde se distrai, onde força e onde se ausenta. É nesse lugar que a prática deixa de ser apenas algo feito no corpo e passa a ser, de fato, uma experiência de consciência.
Acho que uma das grandes confusões que existem hoje em relação ao Yoga é justamente o fato de muitas pessoas ainda o enxergarem com a lógica do exercício físico. E eu entendo que isso aconteça, porque a porta de entrada de muita gente é o corpo, o movimento, a postura, a busca por alongamento, mobilidade ou força. Mas, para mim, Yoga não é exercício físico no sentido comum da palavra. E, se não é, então essa pergunta se torna inevitável: o que exatamente precisa ser corrigido o tempo inteiro? Quando a prática é reduzida a um conjunto de formas externas que precisam ser ajustadas a todo momento, existe o risco de ela se tornar mais uma experiência de controle do que de presença.
Isso não significa, é claro, que técnica não seja importante. Ela é. O aluno precisa aprender, receber orientação, entender princípios, conhecer caminhos e ter referências. Existe um valor muito grande em transmitir técnica com clareza e responsabilidade. Mas uma coisa é ensinar técnica; outra, bem diferente, é ocupar tanto espaço que o aluno já não consegue se escutar. Eu acredito que o ensinamento precisa existir sem sufocar a experiência. O professor apresenta, orienta, organiza, propõe, observa, mas também precisa saber recuar para que a prática amadureça dentro do aluno, e não apenas diante dele.
É justamente por isso que eu não tenho interesse em alimentar uma postura passiva dentro da sala. Não quero reforçar o comodismo de quem terceiriza a experiência, de quem espera ser colocado em cada posição, interpretado em cada sensação e conduzido em cada silêncio. O que me interessa é despertar uma atitude mais curiosa, mais investigativa e mais profunda. Quando o aluno percebe que não vai receber todas as respostas prontas o tempo todo, ele começa a participar de outra forma. Ele presta mais atenção. Ele sente mais. Ele se torna mais responsável pelo que acontece dentro da prática. E, aos poucos, essa postura auto investigativa vai se fortalecendo. A pessoa aprende a observar o próprio corpo com mais honestidade, a reconhecer seus limites sem dramatizar, a perceber seus automatismos e a desenvolver uma relação menos mecânica com o próprio processo.
Esse espírito de investigação é, para mim, uma das coisas mais valiosas do Yoga. A prática não deveria nos transformar em pessoas que apenas sabem obedecer instruções com eficiência. Ela deveria nos tornar mais conscientes, mais sensíveis e mais disponíveis para nos observar de verdade. Porque há uma diferença enorme entre repetir uma forma e habitar uma experiência. A repetição, sozinha, pode até gerar hábito. Mas é a presença que gera transformação.
Essa visão também se conecta muito com a minha relação com a meditação. Eu não gosto de criar uma dependência de condução o tempo inteiro, porque sinto que isso pode enfraquecer justamente aquilo que a prática quer fortalecer. A condução pode ser uma porta de entrada, pode acolher, organizar, introduzir e até facilitar o início do caminho. Mas ela não deveria se transformar em muleta permanente. Em algum momento, é importante que a pessoa experimente estar consigo mesma sem precisar que alguém nomeie cada sensação, conduza cada etapa ou preencha cada silêncio. Meditar também tem a ver com isso: com sustentar a própria presença e aprender a se encontrar sem intermediários o tempo inteiro.
No fundo, tudo isso nasce de uma intenção muito simples, embora profunda: eu quero devolver o aluno para si mesmo. Quero que ele entenda que a prática não está em mim, não está na minha voz e não está na minha correção constante. A prática está nele. Eu posso apontar caminhos, compartilhar técnicas, oferecer estrutura e criar um espaço seguro, mas a experiência verdadeira só acontece quando o aluno se dispõe a receber o que foi ensinado com presença, atitude e abertura real. Porque não basta aprender a técnica. Também é preciso ter a atitude de recebê-la.
E talvez seja justamente isso que eu mais queira cultivar em uma aula: menos dependência, menos passividade e menos automatismo, e mais presença, mais autonomia e mais experiência direta. Esse é o meu método. Não porque eu queira me ausentar da prática do aluno, mas porque eu quero que ele deixe de se ausentar de si mesmo.





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