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Patañjali e os Asanas

Quando pensamos em Yoga hoje, é comum associar a prática às posturas físicas — o que chamamos de asanas. Mas se voltarmos às raízes filosóficas do Yoga clássico, especificamente aos Yoga Sutras de Patañjali, perceberemos que as posturas ocupam um espaço muito mais sutil e profundo do que imaginamos.


pessoa meditando

Este artigo é um convite para revisitar os três sutras em que Patañjali fala diretamente sobre asanas. Uma jornada que vai muito além da performance corporal — é sobre presença, entrega e libertação.


A visão de Patañjali: Yoga além do físico

Os Yoga Sutras foram compilados por Patañjali por volta do século II a.C. e são considerados um dos principais textos filosóficos do Yoga clássico. A obra é dividida em quatro capítulos (padas), e a menção aos asanas aparece no segundo capítulo, chamado Sādhana Pāda, que trata das práticas para alcançar o estado de Yoga.


Curiosamente, Patañjali dedica apenas três sutras às posturas físicas, o que já nos dá uma pista: para ele, asanas não eram o objetivo do Yoga, mas sim ferramentas para alcançar um estado interior de estabilidade e liberdade.


Sutra 2.46 – Sthira Sukham Āsanam

"A postura deve ser firme e confortável."


Este é talvez o sutra mais citado quando falamos sobre asanas. Patañjali nos ensina que a verdadeira postura de Yoga nasce da estabilidade (sthira) e do conforto (sukha).


Não se trata de alcançar uma forma perfeita, mas sim de encontrar um ponto de equilíbrio entre esforço e entrega. Quando o corpo está firme, mas sem tensão, e a mente repousa sem resistência, a postura se transforma em meditação viva.

🌱 Reflexão contemporânea: Quantas vezes em nossas práticas estamos mais preocupadas com o alinhamento visual do que com a experiência interna? Este sutra nos lembra que o asana é o assento da consciência — um espaço para habitar o corpo com leveza e profundidade.

Sutra 2.47 – Prayatna Śaithilya Ananta Samāpattibhyām

"O asana é aperfeiçoado quando o esforço é abandonado e há união com o infinito."


Aqui, Patañjali vai além: o asana é aprimorado quando o esforço deixa de ser forçado e surge uma entrega que transcende o ego. O praticante solta a tensão desnecessária (prayatna śaithilya) e se abre para a experiência do ilimitado (ananta samāpattibhyām).

O “infinito” pode ser entendido como o divino, a consciência cósmica, ou simplesmente o estado de presença plena que não se restringe às fronteiras do corpo.

🕊 Aplicação na prática: Quando paramos de lutar contra a postura e começamos a habitá-la com suavidade e escuta, acessamos um espaço meditativo. É o momento em que a prática deixa de ser apenas física e se torna espiritual.

Sutra 2.48 – Tato Dvandva Anabhighātaḥ

"A partir daí, o praticante não é mais perturbado pelos opostos."


Este sutra é uma consequência direta dos anteriores. Quando o asana é estabelecido com estabilidade e entrega, o praticante se torna imperturbável diante das dualidades da vida — frio e calor, prazer e dor, esforço e relaxamento.


Isso não significa insensibilidade, mas sim uma equanimidade que permite atravessar os altos e baixos com mais serenidade. O corpo encontra seu eixo, e a mente descansa na neutralidade.

🔥 No dia a dia: Ao estabilizar a postura no tapetinho, aprendemos a estabilizar também nossas emoções fora dele. A prática se torna um espelho da vida: nem tudo é confortável, mas é possível encontrar presença mesmo na instabilidade.

Asanas: não é sobre o que você faz, mas sobre como você habita

O que Patañjali propõe com esses três sutras é uma verdadeira revolução de olhar: asana não é uma técnica acrobática, mas um estado interior.

Não há menção à “postura da árvore”, “cachorro olhando para baixo” ou qualquer sequência. O foco está na qualidade da presença que se manifesta quando o corpo se torna um templo do silêncio.


Em um mundo que valoriza o fazer, esses sutras nos convidam ao ser.


Por que isso importa hoje?

Em meio à cultura do desempenho e do Instagram, é fácil se perder em metas estéticas e flexibilidade extrema. Mas os Yoga Sutras nos recordam que o verdadeiro objetivo do asana é sentar-se com estabilidade e conforto para meditar, acessar camadas mais sutis da existência, e finalmente reconhecer que a libertação começa no corpo — mas não termina nele.


Dica prática: leve os sutras para o seu tapetinho

✨ Ao entrar em uma postura, pergunte-se:

  • Estou estável?

  • Estou confortável?

  • Posso relaxar um pouco mais o esforço?

  • Posso me conectar com algo maior do que o meu corpo agora?


Conclusão

Os ensinamentos de Patañjali sobre asanas são simples na forma, mas imensamente profundos em essência. Eles nos convidam a desacelerar, sentir, habitar o corpo com reverência e usar o asana como um portal para a presença, a contemplação e a transformação interior.


No fim, o que transforma não é a complexidade da postura, mas a consciência com que a vivemos.

 
 
 

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