Asana nos Yoga Sutras: o que Patañjali diz nos sutras 2.46, 2.47 e 2.48
Atualizado: 4 de set.
Quando falamos sobre āsana hoje, é fácil pensar imediatamente em posturas físicas, sequências e diferentes formas realizadas com o corpo. Nos Yoga Sūtras de Patañjali, porém, o tratamento do tema é surpreendentemente breve: āsana aparece diretamente em apenas três sūtras, 2.46, 2.47 e 2.48.
Se você quer entender primeiro o significado da palavra āsana, sua origem e como o repertório corporal se desenvolveu também no Haṭha Yoga, eu aprofundo essa história no artigo “O que é asana no Yoga? Significado, origem e propósito da postura”. Aqui, quero olhar especificamente para o que Patañjali diz e, principalmente, para o que ele não diz sobre postura.
Isso importa porque é muito comum utilizarmos os Yoga Sūtras para justificar ideias contemporâneas sobre āsana que, na verdade, não aparecem dessa maneira no texto. Ler os sūtras com mais cuidado não torna a prática menos interessante. Pelo contrário. Ajuda a entender melhor qual é o lugar da postura dentro de um caminho muito maior.

Onde o asana aparece nos Yoga Sutras?
Āsana é o terceiro membro do aṣṭāṅga yoga, o caminho de oito membros apresentado por Patañjali no segundo capítulo, o Sādhana Pāda. Antes dele aparecem yama e niyama. Depois vêm prāṇāyāma, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi.
É interessante observar essa proporção. Hoje existem sistemas inteiros de Yoga organizados em torno das posturas, enquanto Patañjali trata diretamente do āsana em três formulações muito curtas. Isso não diminui a importância do corpo. Mostra que āsana precisa ser compreendido dentro de algo muito maior do que ele.
Os comentários tradicionais também ajudam a evitar uma simplificação bastante comum. No Vyāsabhāṣya, comentário fundamental aos Yoga Sūtras, são mencionadas diferentes posturas pelo nome, entre elas Padmāsana, Vīrāsana, Bhadrāsana, Svastikāsana e Daṇḍāsana. Portanto, dizer simplesmente que āsana, nesse contexto, significava uma única postura sentada para meditação também empobrece a discussão.
Yoga Sutra 2.46: sthirasukham āsanam
O primeiro dos três sūtras diz:
स्थिरसुखमासनम्
sthirasukham āsanam
Uma tradução possível é:
“Āsana é firme e confortável.”
Sthira carrega a ideia de firmeza, estabilidade, constância. Sukha indica conforto, facilidade, uma condição em que se pode permanecer sem sofrimento ou incômodo excessivo.
Eu gosto muito desse sūtra porque ele desmonta uma oposição que aparece frequentemente na prática contemporânea. Firmeza não precisa significar dureza. Conforto não significa passividade. Existe trabalho no āsana, existe sustentação, organização do corpo e atenção. A tensão desnecessária não é sinal de uma prática mais avançada.
Talvez uma postura comece a ficar realmente interessante quando conseguimos permanecer nela sem transformar permanência em luta.
Estabilidade e conforto não significam fazer a postura de qualquer jeito
Também acho importante dizer isso porque sthira sukham às vezes é utilizado como uma justificativa para abandonar técnica, organização ou precisão.
Não é assim que eu ensino.
Uma postura pode exigir força, mobilidade, coordenação e bastante atenção. Há momentos em que o corpo está trabalhando intensamente. A presença de sukha não significa que qualquer posição confortável seja automaticamente um bom āsana.
Para mim, o refinamento está em conseguir sustentar aquilo que precisa ser sustentado e, ao mesmo tempo, perceber tudo o que está sendo feito sem necessidade. Existe uma diferença enorme entre o esforço que organiza a postura e a tensão que apenas acrescentamos a ela.
Essa percepção não acontece olhando apenas para a forma externa. Ela exige sentir.
Yoga Sutra 2.47: prayatnaśaithilyānantasamāpattibhyām
O segundo sūtra diz:
प्रयत्नशैथिल्यानन्तसमापत्तिभ्याम्
prayatnaśaithilyānantasamāpattibhyām
Esse é um sūtra que merece cuidado justamente porque sua tradução não é tão simples quanto às vezes aparece nas aulas de Yoga.
Prayatna está relacionado ao esforço. Śaithilya carrega a ideia de relaxamento, afrouxamento. Por isso, gosto da expressão relaxamento do esforço.
A segunda parte, ananta-samāpatti, abre uma questão mais complexa. Ananta pode remeter ao infinito ou ao ilimitado, enquanto samāpatti é um termo que aparece nos próprios Yoga Sūtras relacionado a estados de absorção ou completa identificação da mente com seu objeto.
No Vyāsabhāṣya, uma das explicações apresentadas para esse sūtra é que a perfeição do āsana ocorre quando cessa o esforço dirigido à postura ou quando a mente assume a ideia do infinito.
Por isso, eu considero simplista traduzir essa passagem apenas como “união com o infinito”. Existe ali uma formulação muito mais interessante, e talvez justamente por isso ela não deva ser fechada rapidamente numa interpretação única.
O que significa relaxar o esforço?
Essa passagem fica especialmente bonita quando levada para o corpo.
No início, muitas posturas exigem bastante esforço porque ainda estamos aprendendo a organizá-las. Precisamos pensar no apoio dos pés, na posição da pelve, na direção da coluna, na respiração, nas mãos, nos ombros. Existe muita ação consciente acontecendo ao mesmo tempo.
Com o tempo, algumas dessas ações deixam de exigir tanta interferência. A postura começa a ficar mais conhecida e surge outra camada da prática. O desafio deixa de ser apenas “como eu faço esta postura?” e começa a incluir outra pergunta: quanto esforço ainda estou fazendo aqui sem necessidade?
Esse é um tipo de pergunta que eu faço muito nas minhas aulas. Onde você realmente precisa sustentar? Onde pode relaxar? O que é ação necessária e o que é tensão acrescentada?
O relaxamento do esforço não é relaxamento da atenção. Muitas vezes precisamos estar ainda mais atentas para perceber que estamos usando força demais.
Yoga Sutra 2.48: tato dvandvānabhighātaḥ
O terceiro sūtra diz:
ततो द्वन्द्वानभिघातः
tato dvandvānabhighātaḥ
Uma tradução possível seria:
“A partir daí, os pares de opostos deixam de perturbar.”
No comentário atribuído a Vyāsa, calor e frio aparecem como exemplos desses opostos.
E aqui eu acho importante fazer uma distinção. É muito comum ampliar esse sūtra imediatamente para uma ideia de equanimidade diante de todas as dualidades da vida, das frustrações, das emoções e dos acontecimentos difíceis. Essa reflexão pode ser feita, mas ela já é uma extensão interpretativa.
O texto está falando da não perturbação pelos pares de opostos no contexto do domínio do āsana.
A partir daí, podemos investigar o que essa capacidade de não ser imediatamente desorganizada por uma experiência provoca também fora da prática. Mas, antes de ampliar, eu gosto de deixar Patañjali dizer o que Patañjali diz.
O que os três sutras dizem juntos?
Quando lemos 2.46, 2.47 e 2.48 em sequência, existe um movimento muito bonito.
Primeiro aparece a qualidade do āsana: estabilidade e conforto. Depois, seu aprofundamento: relaxamento do esforço e samāpatti em ananta. Por fim, uma consequência: menor perturbação pelos pares de opostos.
Isso me parece muito mais interessante do que reduzir os Yoga Sūtras a uma frase motivacional sobre “não forçar”.
Existe aqui uma investigação sobre como o corpo pode encontrar estabilidade suficiente para deixar de produzir perturbação constante. O āsana começa no corpo, mas não precisa terminar na forma.
O que Patañjali não diz sobre asana
Esta talvez seja a parte mais provocativa dessa leitura.
Patañjali não apresenta uma sequência de āsanas. Não estabelece que uma postura mais difícil representa uma pessoa mais avançada no Yoga. Não fala de amplitude de movimento como medida de evolução. Não associa o valor da prática à quantidade de posturas que alguém consegue executar. E também não apresenta a aparência externa da postura como seu principal critério de avaliação.
Isso não significa que técnica, alinhamento ou desenvolvimento corporal não tenham valor. Eu trabalho tudo isso nas minhas aulas. Existe refinamento técnico no Yoga e eu acredito que ele importa.
Mas existe uma distância enorme entre utilizar o corpo como parte do caminho do Yoga e transformar a conquista de formas corporais no próprio objetivo do caminho.
Quando perdemos essa distinção, o āsana deixa de ser uma ferramenta do Yoga e começa a ocupar o lugar do Yoga inteiro.
Como eu levo esses sutras para as minhas aulas
Eu não fico recitando o sūtra 2.46 durante sessenta minutos. Ainda assim, ele aparece o tempo inteiro na maneira como eu ensino.
Aparece quando peço firmeza sem transformar firmeza em rigidez. Quando ajudo uma aluna a perceber que está utilizando cinco vezes mais força do que precisa. Quando proponho uma permanência e observo se ela ainda consegue respirar. Quando mostro que existe diferença entre intensidade e tensão desnecessária. Quando explico que sair de uma postura também pode ser uma decisão inteligente.
O sūtra 2.47 aparece quando eu peço relaxamento do esforço, e não simplesmente relaxamento. Quando a pessoa entende que não precisa abandonar a ação necessária para abandonar a dureza que acrescentou à ação.
E esses ensinamentos aparecem quando a técnica deixa de servir apenas à tentativa de reproduzir uma fotografia de postura e começa a ajudar a pessoa a permanecer nela com mais clareza, presença e discernimento.
É aí que o texto tradicional deixa de ser apenas conteúdo de formação de professores e entra realmente dentro da aula.
Asana não precisa provar nada
Talvez uma das coisas que mais me interessem nesses três sūtras seja justamente o quanto eles contrastam com a ansiedade contemporânea em torno das posturas.
A postura precisa ficar mais difícil. A perna precisa subir mais. A abertura precisa aumentar. Alguma coisa precisa ser conquistada para que exista uma sensação de progresso.
Patañjali nos oferece uma régua completamente diferente: estabilidade, conforto, relaxamento do esforço, menor perturbação.
Isso não elimina o desafio físico. Não elimina estudo técnico. Não elimina força, mobilidade, coordenação ou refinamento. Todas essas coisas podem fazer parte da prática.
Só precisam ocupar o lugar correto.
O corpo é parte da prática. O āsana é parte do Yoga.
Mas o āsana não precisa provar nada sobre quem você é.






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