Por que muitas pessoas desistem do Yoga no começo da prática
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Por que muitas pessoas desistem do Yoga no começo da prática

Existe uma ideia bastante sedutora de que começar a praticar Yoga é, desde o primeiro dia, uma experiência de paz, alívio, bem-estar e conexão imediata. E, claro, às vezes isso acontece. Às vezes a pessoa sai da primeira aula encantada, leve, tocada por alguma sensação nova. Mas nem sempre o começo é assim. Para muita gente, o início da prática é mais desconfortável do que imaginava. E eu acho importante dizer isso com honestidade, porque talvez uma das razões pelas quais tantas pessoas desistem do Yoga cedo demais seja justamente a expectativa errada sobre o que a prática deveria entregar logo de início.

pessoa em meditação

Muita gente chega ao Yoga buscando melhorar a qualidade de vida, aliviar o estresse, diminuir a ansiedade, cuidar do corpo, respirar melhor, dormir melhor, sentir-se melhor. São buscas legítimas e bonitas. Mas o que quase ninguém considera é que, antes de trazer alívio, o Yoga muitas vezes traz percepção. E perceber nem sempre é confortável. Perceber pode ser perturbador. Porque a prática começa a iluminar regiões internas que antes estavam no automático. Tensões que já existiam, mas passavam despercebidas. Ansiedades que já estavam ali, mas eram abafadas pelo excesso de estímulo. Rigidez no corpo, pressa na mente, dificuldade de respirar com profundidade, incômodo com o silêncio, dificuldade de permanecer em si. O Yoga não cria tudo isso. Ele só começa a mostrar.


Eu gosto muito da imagem da casa abandonada para falar desse processo. Muitas vezes, a pessoa chega ao Yoga como se fosse uma casa fechada há muito tempo. À primeira vista, ela talvez ache que está tudo relativamente bem. Mas, quando a luz começa a entrar, aparece a poeira, aparecem as rachaduras, aparecem os pontos que precisam de atenção, as estruturas fragilizadas, aquilo que estava sendo ignorado. E então surge uma sensação confusa: parecia que eu estava melhor antes. Parecia que eu tinha menos problemas antes de começar. Mas, na verdade, não é que o Yoga tenha piorado a experiência. É que ele começou a levar consciência para onde antes havia apenas inconsciência.


Esse é um ponto muito importante, porque algumas pessoas desistem justamente nesse momento. Elas confundem desconforto com erro. Confundem percepção com piora. Confundem o encontro com aquilo que dói com a ideia de que a prática “não funcionou”. Mas o Yoga não existe para manter tudo anestesiado. Ele não foi feito para maquiar a experiência interna nem para nos distrair de nós mesmas. Ao contrário, ele nos aproxima daquilo que está acontecendo de verdade. E esse movimento de aproximação, embora transformador, exige coragem. Nem sempre é agradável olhar para dentro quando passamos a vida inteira sendo chamadas para fora.


Também existe uma outra razão muito comum para a desistência: a falta de paciência com o próprio processo. Vivemos numa cultura que nos ensinou a querer resultado rápido para tudo. Rapidez, eficiência, progresso visível, resposta imediata. Então a pessoa chega ao Yoga com essa mesma mentalidade. Quer sentir logo diferença no corpo. Quer avançar logo nas posturas. Quer perceber logo que “está funcionando”. Quer sair da aula com a sensação de conquista. E, quando isso não acontece na velocidade esperada, ela começa a achar que não leva jeito, que a prática não é para ela, ou que não está evoluindo.


Mas o Yoga pede outro tempo. Um tempo menos ansioso, menos apressado, menos obcecado por evidências imediatas. O progresso dentro da prática nem sempre é visível de fora. Às vezes ele não aparece numa postura mais avançada, nem num corpo mais flexível, nem numa forma mais bonita. Às vezes ele aparece na respiração que ficou menos curta. Na capacidade de sustentar presença por mais tempo. Na redução da pressa. Na consciência de um limite. Na honestidade de reconhecer um estado interno. Na habilidade de não se abandonar tanto. E como esse tipo de transformação é mais sutil, muita gente desiste antes mesmo de aprender a enxergá-la.


Também há pessoas que entram no Yoga olhando apenas para o lado físico da prática. Isso, por si só, não é um problema. O corpo costuma ser mesmo uma porta de entrada possível. O problema começa quando a expectativa se reduz inteiramente a isso. Quando a pessoa acredita que Yoga é apenas alongamento, mobilidade, postura ou desafio corporal. Porque, nesse caso, ela tende a se frustrar com mais facilidade. Ou porque não alcança rápido o que queria, ou porque se compara demais, ou porque não entende por que uma aula aparentemente simples pode mexer tanto por dentro. O Yoga toca regiões que vão muito além da musculatura. E, quando a pessoa não está aberta a isso, pode achar que a experiência não correspondeu ao que imaginava.


Outro ponto importante é que não basta apenas comparecer à aula e esperar que todo o resto aconteça sozinho. O Yoga também pede participação da aluna. Pede estudo. Pede autoestudo. Pede disciplina. Pede uma relação mais comprometida com o processo. Não no sentido de dureza, mas no sentido de presença contínua. Há pessoas que querem colher efeitos profundos sem realmente se implicar no caminho. Querem transformação, mas sem constância. Querem evolução, mas sem paciência. Querem paz, mas sem disposição para atravessar o que ainda está em desordem dentro de si. E isso, inevitavelmente, gera frustração.


É aí que tapas e svadhyaya se tornam tão importantes. Tapas, como disciplina e compromisso. Svadhyaya, como auto-observação e autoestudo. Porque o Yoga não se sustenta apenas em inspiração. Ele precisa de continuidade. Precisa de repetição. Precisa daquele tipo de escolha silenciosa que nem sempre é glamourosa, mas que vai construindo profundidade. E talvez uma das coisas mais difíceis hoje seja exatamente isso: permanecer tempo suficiente num processo para que ele comece a revelar seus frutos mais verdadeiros.


Também percebo que algumas pessoas desistem porque o Yoga desmonta certas fantasias sobre si mesmas. A prática mostra onde existe rigidez, impaciência, reatividade, comparação, ansiedade, resistência à pausa, dificuldade de entrega. E isso pode ferir a imagem que a pessoa tinha de si. Nem sempre é fácil descobrir que você não é tão presente quanto pensava, tão paciente quanto imaginava, tão conectada quanto gostaria. Mas esse choque não deveria ser visto como fracasso. Na verdade, ele pode ser um início muito honesto. Porque só é possível transformar aquilo que, de algum modo, já foi visto.


Por isso eu acho que uma das coisas mais importantes no começo da prática é ajustar a expectativa. Em vez de entrar no Yoga esperando uma solução instantânea, talvez seja mais sábio entrar com curiosidade. Em vez de buscar uma melhora imediata em tudo, entrar disposta a perceber. Em vez de querer dominar logo a prática, permitir que ela vá revelando, aos poucos, aquilo que precisa ser visto. O Yoga não costuma funcionar bem quando é tratado como consumo rápido. Ele exige relação. Exige presença. Exige tempo. E, justamente por isso, entrega coisas que não cabem na lógica da pressa.


No fim, eu diria que muitas pessoas desistem do Yoga no começo não porque o Yoga não funcione, mas porque ele começa a funcionar de um jeito que elas não esperavam. Em vez de apenas relaxar, ele mostra. Em vez de apenas aliviar, ele revela. Em vez de apenas confortar, ele desperta. E despertar, como quase tudo o que é profundo, nem sempre é confortável no início. Mas isso não significa que algo esteja errado. Às vezes, significa apenas que a prática começou, de fato, a tocar onde precisava tocar. E talvez seja justamente aí que começa a parte mais transformadora do caminho.

 
 
 
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