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Por que muitas pessoas desistem do Yoga no começo da prática

3 de jun.
7 min de leitura

Atualizado: 11 de set.

Muita gente começa Yoga esperando sair da primeira aula mais leve, relaxada e imediatamente conectada com a prática. Às vezes acontece: a pessoa termina encantada, sente alguma coisa nova no corpo, percebe a respiração diferente e já entende que quer continuar. Em outras vezes, a primeira experiência é estranha, difícil, desconfortável ou simplesmente muito diferente daquilo que ela imaginava, e uma experiência frustrante no começo pode ser suficiente para alguém concluir: Yoga não é para mim.


Só que nem toda desistência acontece pela mesma razão. Algumas pessoas chegam com expectativas que a prática não consegue cumprir em uma ou duas aulas. Outras se sentem desconfortáveis quando começam a perceber coisas que antes passavam despercebidas. Algumas querem resultados muito rápidos. E, em certos casos, a verdade é mais simples: aquela aula, aquele professor ou aquela modalidade realmente não foram uma boa experiência. Por isso, antes de concluir que você não gosta de Yoga, vale entender o que exatamente aconteceu quando você começou.


pessoa em meditação

Antes do alívio, o Yoga muitas vezes traz percepção


Muita gente procura o Yoga para melhorar a qualidade de vida, aliviar o estresse, diminuir a ansiedade, cuidar do corpo, respirar melhor, dormir melhor ou simplesmente se sentir melhor. São motivos perfeitamente legítimos. Só que uma das primeiras coisas que a prática pode desenvolver não é o alívio, mas a percepção. E perceber nem sempre é confortável. Você começa a notar tensões que já estavam no corpo, mas passavam despercebidas. Percebe como a respiração fica curta quando alguma coisa exige esforço. Nota a pressa para sair de uma postura, a dificuldade de permanecer em silêncio, a ansiedade quando não existe estímulo suficiente para ocupar a mente, a rigidez que já existia há muito tempo. O Yoga não precisa criar essas coisas para que você as sinta durante a prática. Muitas vezes ele apenas oferece condições para que aquilo que já estava acontecendo fique mais evidente, e isso pode ser desconcertante.


A casa abandonada


Eu gosto muito da imagem da casa abandonada para falar desse processo. Muitas vezes, a pessoa chega ao Yoga como se fosse uma casa fechada há muito tempo. À primeira vista, talvez pareça que está tudo relativamente bem: a casa está de pé, as portas estão fechadas e ninguém está mexendo em nada. Então você abre as janelas. A luz começa a entrar e, junto com ela, aparece a poeira. Aparecem as rachaduras, os pontos que precisam de atenção, as estruturas fragilizadas e aquilo que estava sendo ignorado justamente porque ninguém olhava de perto. E então surge uma sensação confusa: parecia que eu estava melhor antes, parecia que eu tinha menos coisas para resolver antes de começar a olhar. Mas os problemas não surgiram quando a janela foi aberta. Você apenas passou a enxergá-los.


Alguma coisa parecida pode acontecer no Yoga. A prática aumenta a percepção e, com ela, certas coisas ficam mais difíceis de ignorar. Você percebe como está respirando, onde está se defendendo, como reage quando encontra uma dificuldade, quanto se compara, quanto se cobra e como lida com os próprios limites. E nem sempre gostamos imediatamente daquilo que encontramos.


Nem todo desconforto significa a mesma coisa


Existe um desconforto que pode aparecer quando começamos a prestar atenção em coisas que antes passavam despercebidas. Mas nem todo desconforto precisa ser atravessado e nem todo desconforto é sinal de profundidade. Dor, sensação de insegurança, medo, uma aula incompatível com o seu momento ou uma condução que desrespeita seus limites não são provas de que o Yoga está “mexendo no que precisa mexer”. Yoga não deveria exigir que você ignore os sinais do próprio corpo em nome da prática. Percepção é justamente o contrário: é aprender a distinguir esforço de violência, desafio de imprudência, resistência mental de um limite que precisa ser respeitado. E isso também se aprende.


Às vezes, o problema foi a aula


Uma primeira experiência ruim com Yoga também pode ser simplesmente uma primeira experiência ruim. Existem professores diferentes, métodos diferentes, ritmos diferentes e maneiras muito diferentes de conduzir uma aula. Uma pessoa que se sente completamente perdida numa prática muito dinâmica pode descobrir que gosta de uma aula mais pausada. Outra pode não se identificar com longas permanências e encontrar muito mais sentido numa prática com movimento e fluidez.


Também existe a questão da didática. Para quem está começando, receber instruções pouco claras, olhar para os lados e sentir que todo mundo sabe o que está fazendo menos você ou entrar numa turma que pressupõe um repertório que você ainda não possui pode fazer o Yoga parecer muito mais inacessível do que precisa ser. E eu acho que esse é um ponto importante para professores também: saber praticar Yoga e saber ensinar Yoga não são a mesma coisa. O aluno não deveria precisar chegar à aula sabendo o nome das posturas, entendendo comandos complexos ou adivinhando o que o professor quis dizer. É papel de quem ensina criar condições para que aquela pessoa consiga acompanhar e aprender. Por isso, eu não concluiria que “Yoga não é para mim” a partir de uma única experiência. Talvez aquela aula não tenha sido para você.


Você ainda está aprendendo a praticar


Outra razão muito comum para desistir cedo é querer se sentir confortável numa prática que ainda é completamente nova. Nas primeiras aulas, você pode precisar pensar para entender onde colocar o pé, para onde virar, quando inspirar, quando expirar. Pode olhar para o professor o tempo inteiro e esquecer o nome de uma postura dois minutos depois de ouvi-lo. Tudo isso faz parte do começo. Depois de algum tempo, várias dessas coisas deixam de exigir tanta atenção. O corpo começa a reconhecer movimentos, você entende melhor a linguagem da aula, sabe como adaptar uma postura e percebe mais rapidamente quando alguma coisa não está funcionando. Quando essa parte começa a ficar mais familiar, sobra espaço para perceber outras camadas da prática.


Por isso, progresso no Yoga não significa apenas alcançar uma postura mais difícil. A familiaridade também é progresso. Entender melhor uma instrução é progresso. Sentir menos necessidade de olhar para os outros é progresso. Reconhecer um limite antes de ultrapassá-lo é progresso. Conseguir perceber a própria respiração no meio de uma postura também é progresso. No começo, muita coisa muda sem produzir uma imagem impressionante.


O Yoga não costuma responder bem à pressa


Vivemos numa cultura que nos acostumou a querer resultados muito rapidamente. Começamos alguma coisa e queremos logo uma confirmação de que está funcionando. No Yoga, essa lógica aparece facilmente: a pessoa quer sentir diferença no corpo, quer ficar flexível, quer conseguir fazer determinadas posturas, quer perceber a mente mais tranquila, quer dormir melhor ou controlar a ansiedade, e quer alguma evidência rápida de que o esforço está valendo a pena. Só que prática exige tempo. Há coisas que podem ser percebidas logo nas primeiras aulas e há outras que dependem de repetição, familiaridade e continuidade.


E aqui eu não acho que precisamos romantizar. Há pessoas que querem colher efeitos profundos sem realmente se comprometer com o caminho. Querem transformação sem constância, evolução sem paciência e paz sem disposição para atravessar aquilo que ainda está em desordem dentro de si. Isso não funciona. Uma aula isolada pode ser gostosa, relaxante ou interessante, mas uma prática se constrói com repetição. Você não precisa reorganizar a vida inteira em torno do Yoga para começar, nem assumir imediatamente um compromisso espiritual profundo com a prática. Mas, se quiser descobrir o que acontece quando o Yoga deixa de ser apenas uma experiência ocasional, vai precisar permanecer por algum tempo.


Algumas coisas que a prática mostra podem incomodar


Também percebo que algumas pessoas desistem porque o Yoga contraria certas ideias que elas tinham sobre si mesmas. Você se considerava paciente até precisar permanecer, achava que sabia descansar até encontrar silêncio, imaginava que respeitava os próprios limites até perceber o quanto se compara com a pessoa ao lado e acreditava que estava presente até notar que passou boa parte da aula pensando no que faria depois dela. Esse tipo de descoberta pode incomodar, mas agora existe informação. E informação permite escolha.


Para mim, uma das coisas mais interessantes do Yoga está justamente aí. A prática cria situações simples em que conseguimos observar como reagimos. Não precisamos esperar uma grande crise para perceber impaciência, comparação, pressa ou dificuldade de entrega. Às vezes basta uma postura que não acontece do jeito que gostaríamos. O que fazemos com essa informação depois já é outra parte da prática.


O corpo também pode ser uma porta de entrada


Muita gente começa Yoga por uma razão física. Quer alongar, melhorar a mobilidade, diminuir alguma tensão ou simplesmente encontrar uma atividade diferente. Eu não vejo problema nenhum nisso. O corpo pode ser uma excelente porta de entrada. O que pode gerar frustração é acreditar que toda a experiência do Yoga será medida apenas pelo que o corpo consegue fazer. Algumas aulas serão simples e ainda assim exigentes. Uma postura aparentemente fácil pode revelar muita dificuldade de presença. Uma prática mais lenta pode ser muito mais desafiadora para alguém acostumado a fazer tudo rapidamente. Yoga pode fortalecer, mobilizar e desenvolver inúmeras capacidades corporais, mas a experiência não termina aí. E perceber isso cedo ajuda a entender por que nem tudo o que acontece numa aula pode ser medido olhando apenas para a forma da postura.


Antes de concluir que Yoga não é para você


Se você começou recentemente e está pensando em desistir, eu observaria algumas coisas antes de tomar essa decisão. Você se sentiu segura na aula? Entendeu minimamente o que estava sendo proposto? O ritmo fazia sentido para você? Conseguiu adaptar quando precisava? Sentiu que poderia perguntar alguma coisa ao professor? E, principalmente: o que exatamente fez você pensar que não gostava de Yoga?


Foi o silêncio? Você achou a prática fisicamente difícil? Se sentiu perdida durante a aula? Ficou se comparando com as outras pessoas? Estava esperando uma experiência completamente diferente? O professor não conseguiu conduzir você de uma maneira que fizesse sentido? Ou talvez aquela modalidade simplesmente não combine com você? Descobrir o que incomodou é muito mais útil do que concluir genericamente que “Yoga não funciona para mim”. Eu experimentaria mais de uma aula e, se possível, mais de um professor ou estilo antes de fechar essa porta. Yoga é amplo demais para ser definido por uma única experiência.


Você não precisa saber fazer Yoga para começar


Começar Yoga também é aprender a praticar Yoga. Existe um período de adaptação, de familiaridade com o corpo, com a linguagem da aula, com a respiração e até com a experiência de prestar atenção em si. Algumas pessoas se apaixonam logo na primeira aula. Outras precisam de tempo. Algumas precisam encontrar outro professor, outro ritmo ou outra modalidade. E algumas simplesmente descobrem que não querem praticar Yoga naquele momento. Tudo isso pode acontecer.


O que eu evitaria é desistir porque você achou que deveria ter sido boa na prática, ter entendido tudo, acompanhado todo mundo ou sentido paz imediatamente. Você está começando. E existe uma coisa que, para mim, deveria ser óbvia em qualquer aula para iniciantes: você não precisa saber fazer Yoga para começar Yoga. É justamente na aula que deveria existir espaço para aprender.


No Shala, isso também orienta a maneira como organizamos a experiência. As turmas são pequenas, existe espaço para adaptações, dúvidas e acompanhamento, e a proposta é justamente que a pessoa consiga aprender a prática sem precisar chegar sabendo. Porque começar bem não significa fazer tudo certo na primeira aula. Significa encontrar um espaço onde exista possibilidade de continuar.


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