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Filosofia do Yoga na prática: como os yamas e niyamas aparecem na aula

13 de mai.
8 min de leitura

Atualizado: há 6 dias

Existe uma ideia muito comum de que a filosofia do Yoga pertence aos livros, aos nomes em sânscrito, às aulas teóricas ou às conversas mais profundas sobre espiritualidade, enquanto a prática corporal seria outra coisa. Eu não vejo assim. Para mim, a filosofia do Yoga aparece o tempo inteiro no modo como a pessoa respira, se movimenta, insiste, recua, se compara, se escuta ou se abandona durante uma aula.


Nos Yoga Sūtras, Patañjali apresenta os yamas e niyamas antes mesmo de āsana. Eles fazem parte do caminho de oito membros, o aṣṭāṅga yoga, e dizem respeito à maneira como o praticante se relaciona consigo, com os outros e com o próprio caminho. No sūtra 2.30 aparecem os cinco yamas: ahiṃsā, satya, asteya, brahmacarya e aparigraha. No sūtra 2.32, os cinco niyamas: śauca, santoṣa, tapas, svādhyāya e Īśvara praṇidhāna.


Conhecer o significado tradicional desses termos é importante para entender como eles podem ser aplicados à prática contemporânea sem perder o contexto em que foram formulados. Ao mesmo tempo, eles não precisam permanecer restritos ao estudo teórico. Quando observo uma turma, consigo perceber muitos desses princípios acontecendo de maneira bastante concreta no corpo, nas escolhas e na forma como cada pessoa atravessa a própria prática.


professora observando os alunos na aula de yoga

Os cinco yamas: princípios que orientam nossa relação com o mundo


Os yamas são frequentemente apresentados como restrições ou princípios éticos. Eles não foram formulados originalmente como instruções para executar posturas, mas uma aula de Yoga pode se tornar um espaço muito interessante para perceber como nos relacionamos com eles.


Ahiṃsā: não violência


Ahiṃsā é não violência, não causar dano. Seu alcance é muito maior do que simplesmente não forçar uma postura. A tradição discute a violência em pensamentos, palavras e ações, por isso esse princípio envolve uma maneira muito mais ampla de se relacionar consigo, com os outros e com o mundo.


Dentro da prática, uma das maneiras como eu vejo ahiṃsā aparecer é justamente na capacidade de perceber quando o esforço começa a se transformar em agressão. Muita gente entra no Yoga carregando a mesma lógica de cobrança que leva para outras áreas da vida. Quer render, avançar, alcançar, provar alguma coisa, suportar um pouco mais.


É possível se dedicar sem se violentar. Respeitar um limite não é falta de esforço e reconhecer que uma postura precisa ser adaptada não significa desistir dela. Para mim, essa é uma das formas mais concretas de perceber ahiṃsā no tapete: observar a qualidade da relação que você estabelece com o próprio corpo quando ele não corresponde exatamente ao que você gostaria.


Satya: verdade


Satya é verdade, veracidade, compromisso com aquilo que é verdadeiro. E numa aula isso pode aparecer de maneiras extremamente simples.


Às vezes a pessoa quer acreditar que está confortável porque gostaria de permanecer mais tempo. Diz para si mesma que está tudo bem, embora a respiração esteja presa e o corpo demonstre claramente outra coisa. Em outros momentos, insiste numa forma porque não quer reconhecer que naquele dia seu limite está diferente.


O ponto não é tocar o chão, executar uma postura de determinada maneira ou parecer avançada. O ponto é a honestidade. O Yoga confronta com frequência a nossa tendência de sustentar uma imagem, inclusive para nós mesmas. Satya começa a aparecer quando a pessoa consegue olhar para aquilo que está realmente acontecendo naquele momento sem precisar transformar a experiência em outra coisa.


Asteya: não roubar


Asteya significa não roubar, não tomar aquilo que não nos pertence. É um princípio que vai além do ato evidente de pegar algo material de outra pessoa e envolve uma relação de respeito com aquilo que pertence ao outro.


Dentro de uma aula, consigo perceber esse princípio de maneiras bastante concretas. Existe o respeito pelo espaço do outro, pelos objetos, pelo tempo da turma e pela atenção do professor. Existe também o cuidado de não invadir a experiência de outra pessoa com correções que ninguém pediu, comentários sobre o corpo alheio ou uma necessidade constante de ocupar um espaço que é coletivo.


Uma sala de Yoga não existe apenas para aquilo que eu quero viver individualmente. Ela é compartilhada, e parte da prática consiste em perceber que a minha experiência acontece ao lado da experiência de outras pessoas, que também têm direito ao próprio espaço, ao próprio tempo e à própria prática.


Brahmacarya: continência e domínio dos impulsos


Brahmacarya é um dos termos que mais mudou de linguagem dentro do Yoga contemporâneo. Hoje é muito comum encontrá-lo traduzido simplesmente como “uso consciente da energia”. Tradicionalmente, porém, brahmacarya está fortemente associado à continência, ao domínio da sexualidade e, em contextos ascéticos, ao celibato.


A interpretação contemporânea como uso consciente da energia amplia consideravelmente o sentido original do termo. Ainda assim, essa ampliação pode produzir uma reflexão interessante sobre dispersão, contenção e direcionamento da atenção.


Há uma dispersão enorme na maneira como vivemos. O corpo está numa sala, enquanto a mente continua resolvendo o que aconteceu antes, antecipando aquilo que acontecerá depois e acompanhando tudo o que as pessoas ao redor estão fazendo. Quando eu digo aos alunos que, naquele momento, o que importa acontece da pele para dentro, estou convidando a um recolhimento da atenção.


Essa leitura pertence a uma interpretação contemporânea de brahmacarya, em que o conceito de continência é ampliado para pensar também a dispersão e o direcionamento da energia. Dentro de uma aula, isso pode significar perceber quanto da nossa presença está sendo constantemente puxada para fora e o que acontece quando começamos a recolhê-la.


Aparigraha: não acumular e não se agarrar


Aparigraha é não acumular, não se apropriar excessivamente e não se agarrar ao que possuímos. Dentro da prática, essa relação com o apego pode aparecer também na necessidade de possuir resultados.


Há pessoas que não querem simplesmente praticar uma postura. Querem conquistá-la. Querem chegar nela, incorporá-la ao repertório e sentir que avançaram. Ter objetivos não é um problema. A questão aparece quando toda a experiência passa a ser sequestrada pelo resultado.


Você está executando uma postura, mas já está pensando em como ela deveria estar. Está vivendo uma aula, mas avaliando se ela entregou aquilo que você esperava. Está num corpo real, naquele dia, enquanto tenta negociar com a imagem de um corpo ideal.


Aparigraha me faz pensar nessa capacidade de diminuir o agarramento. Você pode continuar praticando, estudando e se desenvolvendo sem precisar transformar cada experiência em algo que deve ser conquistado e possuído.


Os cinco niyamas: aquilo que o praticante cultiva


Os niyamas dizem respeito a observâncias, disciplinas e atitudes cultivadas pelo praticante. Assim como nos yamas, conhecer o sentido tradicional ajuda a compreender de que maneira esses princípios podem atravessar a vida e também aparecer dentro da prática.


Śauca: pureza e limpeza


Śauca significa pureza ou limpeza e inclui dimensões externas e internas. Existe o cuidado com o corpo, com a higiene e com o espaço, além de uma dimensão de purificação interior ligada àquilo que cultivamos e alimentamos mentalmente.


Dentro de uma aula, gosto de pensar em śauca de maneira bastante concreta. Como você chega à prática? Que tipo de agitação leva para o tapete? O que continua alimentando enquanto pratica? Que pensamentos você repete para si mesma durante uma postura?


A prática não controla aquilo que surge na mente, mas pode nos tornar mais conscientes do que estamos constantemente reforçando. E essa percepção já muda a qualidade da experiência.


Santoṣa: contentamento


Santoṣa é contentamento. E esse talvez seja um dos princípios mais interessantes para observar numa cultura que nos ensina continuamente a querer mais.


Contentamento não significa passividade, desistência ou falta de ambição. Significa desenvolver uma relação menos faminta com a experiência.


Isso aparece muito claramente na prática porque nem toda aula será extraordinária. Nem todo dia o corpo estará disponível da mesma forma. Nem sempre haverá uma grande descoberta, uma sensação profunda ou um progresso facilmente identificável.


Há dias em que a prática será profunda. Há dias em que será apenas possível. E ainda assim pode haver contentamento.


Para mim, santoṣa começa justamente quando a prática não depende de tudo ter acontecido exatamente como eu gostaria para que eu reconheça valor naquilo que foi possível viver.


Tapas: disciplina, austeridade e esforço sustentado


Tapas carrega uma ideia tradicional de austeridade, disciplina e esforço sustentado. A própria palavra está relacionada a calor, a uma espécie de ardor produzido pela prática e pela disciplina.


Isso exige discernimento. Austeridade não significa violência. Praticar tapas não significa machucar o corpo, ignorar limites ou transformar sofrimento em mérito espiritual.


Na maneira como observo a prática contemporânea, tapas aparece muito na constância. É fácil se comprometer quando existe entusiasmo, novidade e motivação. A disciplina começa a ser testada justamente quando isso diminui.


É voltar ao tapete. É sustentar aquilo que você escolheu mesmo sem recompensa imediata. É perceber que transformação raramente nasce de uma intensidade ocasional e costuma depender muito mais de repetição e continuidade.


Numa época em que quase tudo disputa nossa atenção e convida para a dispersão, permanecer numa prática já pode ser um exercício bastante concreto de disciplina.


Svādhyāya: estudo, recitação e autoestudo


Hoje, svādhyāya é frequentemente traduzido como autoestudo. Nos contextos tradicionais ligados ao Yoga, porém, o termo também está associado ao estudo das escrituras, à recitação e à repetição de mantras. A leitura de svādhyāya como observação e estudo de si ganhou grande espaço nas interpretações contemporâneas.


Na aula, essa dimensão de observação de si aparece com muita força. O tapete pode funcionar como um espelho. Você começa a perceber padrões que se repetem: onde existe automatismo, medo, pressa, comparação, rigidez, resistência à pausa ou necessidade de controle.


O corpo oferece uma experiência concreta para perceber aquilo que normalmente passa despercebido. Você não precisa teorizar sobre a própria impaciência quando consegue vê-la acontecendo numa permanência de trinta segundos.


Essa dimensão de estudo de si pode ser muito rica dentro da prática, desde que o sentido mais amplo de svādhyāya também seja conhecido.


Īśvara praṇidhāna: entrega a Īśvara


Īśvara praṇidhāna é a entrega a Īśvara. Nos Yoga Sūtras, existe aqui uma dimensão explicitamente espiritual e devocional.


Explicações contemporâneas costumam aproximar o conceito de ideias como soltar o controle, confiar ou se entregar à experiência, mas essas formulações não esgotam o significado tradicional do termo.


Quem ensina Yoga hoje pode apresentar esse conceito respeitando alunos com crenças diferentes sem precisar ocultar o contexto espiritual em que ele aparece. Conhecer a filosofia do Yoga não obriga ninguém a adotar uma crença específica, mas exige honestidade sobre aquilo que está sendo estudado.


Dentro de uma aula, podemos refletir sobre entrega, confiança e redução da necessidade de controlar cada detalhe da experiência. Relaxar no śavāsana pode ser uma experiência de entrega, mas isso não transforma automaticamente śavāsana em Īśvara praṇidhāna.


Filosofia do Yoga não precisa virar palestra durante a aula


Tudo isso também não significa que uma aula de Yoga precise se transformar numa exposição teórica de cinquenta minutos.


Eu não acho que o professor precise interromper uma prática para dar uma aula completa sobre ahiṃsā cada vez que pede ao aluno para respeitar um limite. A filosofia pode aparecer na maneira como a aula é conduzida, nas perguntas que fazemos, na autonomia que oferecemos e na própria experiência que criamos.


Mas o professor precisa conhecer aquilo que está ensinando.


Um conceito tradicional pode iluminar uma experiência contemporânea sem precisar ser reescrito até dizer aquilo que gostaríamos que dissesse. Ensinar filosofia do Yoga também exige reconhecer essa diferença.


Para mim, a filosofia do Yoga não está separada da prática, mas também não precisa ser simplificada para caber nela. Ela aparece quando a pessoa consegue reconhecer violência na maneira como se força, verdade na capacidade de admitir onde está, disciplina na constância, contentamento no que é possível naquele dia e observação na maneira como percebe os próprios padrões.


Ao mesmo tempo, os yamas e niyamas são maiores do que aquilo que acontece dentro de uma aula. Eles não foram criados como dicas para melhorar āsanas. São princípios de um caminho muito mais amplo.


E é justamente por isso que continuam tão interessantes.


Quando estudamos aquilo que os textos dizem e depois observamos como esses ensinamentos podem atravessar uma prática contemporânea, a filosofia deixa de ser apenas um conjunto de palavras em sânscrito.


Ela começa a ser incorporada.


Precisa descer da cabeça para o corpo, do corpo para a vida.


Porque é aí que o estudo deixa de ser apenas informação e começa, de fato, a transformar a maneira como praticamos Yoga.


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