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No Yoga, fazer o simples bem feito pode ser mais transformador do que complicar

Existe uma tentação muito comum no Yoga, e talvez na vida como um todo, de achar que aquilo que é mais complexo é também mais valioso. Como se quanto mais técnicas, mais posturas, mais variações, mais palavras em sânscrito, mais informações e mais camadas a gente acrescenta, mais profunda a prática se torna. Mas, com o tempo, eu tenho a sensação de que a profundidade nem sempre está no excesso. Muitas vezes, ela está justamente no contrário. Na capacidade de sustentar o essencial com presença. Na maturidade de fazer o simples bem feito.


Peças de Scrabble formam a frase "ITS SIMPLE" sobre fundo bege, transmitindo simplicidade e clareza.

Isso parece óbvio, mas não é. Porque o simples, quando é realmente simples, costuma nos confrontar. Ele tira os enfeites, tira a distração, tira a novidade pelo simples prazer da novidade e nos deixa diante daquilo que importa. Respirar com atenção. Permanecer numa postura básica sem fugir mentalmente. Repetir um movimento conhecido com mais presença do que da última vez. Escutar uma instrução clara e deixar que ela desça de verdade para o corpo, em vez de acumular mais e mais estímulos sem tempo para integração.


Talvez por isso o simples exija tanto. Não pela dificuldade aparente, mas porque ele pede consistência. E consistência nem sempre é tão sedutora quanto novidade. A mente gosta do inédito, do impressionante, do que parece sofisticado. Mas o corpo e a consciência, muitas vezes, aprendem de outro jeito. Aprendem pela repetição, pela familiaridade, pelo aprofundamento gradual. Aprendem quando algo volta muitas vezes, até deixar de ser apenas informação e se tornar experiência.


No Yoga, isso é muito visível. Uma mesma postura pode ser praticada dezenas de vezes e, ainda assim, revelar algo novo. Não porque a postura mudou radicalmente, mas porque quem a pratica mudou. O corpo naquele dia é outro. A respiração é outra. O estado mental é outro. A escuta é outra. E o que antes parecia básico pode, de repente, ganhar profundidade. Às vezes, a prática amadurece não quando fazemos mais coisas, mas quando começamos a perceber melhor aquilo que já está ali.


Acho que existe também um equívoco muito moderno de associar simplicidade à superficialidade. Como se uma prática simples fosse necessariamente pobre, limitada ou pouco interessante. Mas simplicidade e superficialidade não são a mesma coisa. Uma prática pode ser simples e, ainda assim, muito profunda. Assim como pode ser complexa e, mesmo assim, dispersa, confusa ou excessiva. O simples bem feito não é simplório. Ele é refinado. Porque exige clareza, intenção, repetição com consciência e presença real.


Isso vale muito para quem ensina também. Às vezes, a professora sente que precisa entregar muito, explicar muito, variar muito, surpreender muito, quase como se a aula precisasse justificar o seu valor a todo momento. Mas nem sempre o excesso de técnica, de informação e de criatividade produz uma experiência melhor para o aluno. Em muitos casos, produz o contrário. Sobrecarga. Confusão. Dispersão. Um aluno já chega cheio de estímulos, cheio de tarefas, cheio de pensamentos. Talvez a aula de Yoga não precise acrescentar mais peso a isso. Talvez ela precise oferecer um caminho mais claro, mais respirável e mais assimilável.


Fazer o simples bem feito, nesse contexto, é quase um gesto de generosidade. É escolher não impressionar desnecessariamente. É escolher ensinar com clareza. É confiar que uma boa base, repetida com consciência, sustenta mais transformação do que uma coleção de excessos. É entender que profundidade não vem de despejar tudo o que se sabe, mas de oferecer o que realmente pode ser recebido e incorporado.


Também gosto de pensar que o simples bem feito tem muito a ver com humildade. Porque ele pede que a gente abra mão da vaidade de parecer mais elaborada do que precisa. Pede que a gente respeite o tempo do corpo, o tempo da mente, o tempo do aprendizado. Pede que a gente entenda que não é preciso transformar cada aula numa experiência espetacular para que ela seja valiosa. Às vezes, o que realmente marca uma prática é justamente a sobriedade, a consistência e a presença com que o essencial foi conduzido.


Na vida fora do tapete isso também se confirma o tempo todo. O que transforma, na maioria das vezes, não é um grande gesto isolado. São pequenas ações repetidas com consciência. É a respiração lembrada no meio do caos. É a pausa antes da reação impulsiva. É o cuidado cotidiano com o corpo. É a honestidade de reconhecer um limite. É o retorno ao que sustenta. O simples bem feito, no fundo, tem uma força silenciosa. Ele não chama tanta atenção quanto o extraordinário, mas é ele que constrói base.


No Yoga, essa base importa muito. Porque sem base, a prática pode virar performance. Pode virar busca por novidade. Pode virar acúmulo. Pode virar uma experiência bonita por fora e dispersa por dentro. Quando existe base, até o que é simples ganha potência. A respiração se aprofunda. A postura se organiza. A mente começa a se aquietar. A experiência deixa de ser apenas externa e passa a tocar alguma coisa mais íntima.


Talvez por isso eu acredite tanto que, no Yoga, fazer o simples bem feito pode ser mais transformador do que complicar. Porque o simples, quando é habitado de verdade, deixa de ser pouco. Ele vira caminho. Ele vira chão. Ele vira prática real.


E, no fim das contas, talvez seja justamente isso que a maioria de nós mais precise. Não de mais excesso, mais técnica, mais informação e mais novidade o tempo inteiro. Mas de mais presença no essencial. Mais constância no que sustenta. Mais profundidade naquilo que, à primeira vista, parecia simples demais para transformar.

 
 
 

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