Seu professor de Yoga não é seu terapeuta: os limites dessa relação
Atualizado: 29 de ago.
Existe uma proximidade muito particular entre professor e aluno de Yoga. A gente acompanha pessoas durante meses, às vezes durante anos. Vê aquele aluno chegar cansado, feliz, irritado, atravessando uma separação, mudando de emprego, vivendo um luto, começando uma relação nova. Antes ou depois da aula surgem conversas que vão muito além de postura, respiração e filosofia. E eu não vejo nenhum problema nisso. Faz parte de trabalhar com pessoas e, em muitos casos, faz parte também do vínculo que se cria dentro de uma turma.
O problema começa quando essa proximidade faz com que o professor passe a ocupar um lugar que não é o dele.
Um aluno pode confiar muito em você. Pode se sentir confortável para contar coisas bastante pessoais. Pode até dizer que determinada aula o ajudou num momento difícil. Nada disso transforma uma aula de Yoga em psicoterapia e também não transforma o professor em terapeuta daquela pessoa.
Essa distinção parece óbvia quando escrevemos assim, mas na prática nem sempre é. Principalmente porque o próprio universo do Yoga frequentemente usa palavras como cura, trauma, emoções, bloqueios, sistema nervoso, liberação e transformação com muita facilidade. Se o professor não tiver bastante clareza sobre o seu papel, pode começar a interpretar coisas que não deveria interpretar, dar conselhos que não está preparado para dar e assumir uma responsabilidade muito maior do que aquela que deveria existir numa relação de aula.

Yoga pode fazer bem sem precisar ser chamado de terapia
Eu não preciso diminuir os efeitos que uma prática pode ter sobre uma pessoa para reconhecer os seus limites.
Alguém pode terminar uma aula mais tranquilo. Pode perceber melhor a própria respiração, dormir melhor naquela noite, se sentir mais presente ou simplesmente sair de uma hora em que conseguiu não pensar o tempo inteiro nos problemas que estavam acontecendo fora dali. Para algumas pessoas, ter um horário na semana dedicado à prática também cria uma rotina importante de autocuidado.
Tudo isso tem valor.
O que eu evitaria é dar um passo além e concluir que, porque uma pessoa se sente melhor depois de uma aula, nós estamos tratando ansiedade, depressão, trauma ou qualquer outra condição de saúde mental. São coisas diferentes.
Da mesma forma, uma pessoa pode fazer Yoga enquanto faz psicoterapia, acompanhamento psiquiátrico ou outro tratamento. Uma coisa não invalida a outra. O problema aparece quando a aula começa a ocupar o lugar do cuidado especializado que aquela pessoa precisa.
O aluno chorou durante a aula. E agora?
Esse talvez seja um dos exemplos mais comuns.
Um aluno começa a chorar em Savasana, numa postura, numa meditação ou até no começo da prática. Como professora, é natural perceber, oferecer um lenço, perguntar discretamente se está tudo bem ou simplesmente dar espaço, dependendo da situação e da pessoa.
O que eu não preciso fazer é interpretar por que aquilo aconteceu.
Eu não sei se aquela pessoa chorou porque determinada postura “liberou uma emoção armazenada”. Não sei se existe um trauma relacionado àquela região do corpo. Não sei se um chakra desbloqueou. Talvez ela esteja passando por uma situação difícil. Talvez tenha lembrado de alguma coisa. Talvez esteja exausta. Talvez aquela tenha sido simplesmente a primeira hora do dia em que ela conseguiu ficar em silêncio.
Nem tudo precisa receber uma explicação.
Eu acho inclusive mais respeitoso permitir que o próprio aluno dê significado à experiência, se quiser, do que o professor rapidamente oferecer uma interpretação.
Acolher não significa investigar
Se um aluno me procura depois da aula e fala que não está bem, eu posso ouvir. Posso perguntar se ele precisa de alguma coisa naquele momento. Posso demonstrar preocupação e acolhimento.
Mas existe uma diferença entre ouvir aquilo que espontaneamente me foi contado e começar a investigar.
“Desde quando você se sente assim?”, “o que aconteceu na sua infância?”, “como é a sua relação com a sua mãe?”, “você acha que essa dor representa alguma emoção que está reprimindo?”. Dependendo do contexto, esse tipo de pergunta já começa a levar a conversa para um lugar que uma professora de Yoga não precisa ocupar.
E existe ainda outra questão: talvez o próprio aluno não tenha percebido que a conversa mudou de natureza. Ele veio fazer uma aula, criou confiança naquela professora e, aos poucos, começa a compartilhar cada vez mais. Se o professor também incentiva essa dinâmica, é muito fácil que se forme uma relação de dependência em que o aluno passa a procurar aquela pessoa não apenas para praticar, mas para tomar decisões, compreender emoções e encontrar respostas para questões que estão completamente fora da aula.
A intenção do professor pode ser boa e, ainda assim, a relação pode ficar confusa.
O professor não precisa ter uma resposta para tudo
Acho que existe uma expectativa muito estranha em torno de professores de Yoga de que, porque estudamos filosofia, meditação e algumas práticas de autoconhecimento, deveríamos ter uma resposta particularmente sábia para os problemas das pessoas.
Eu não tenho.
Se um aluno me pergunta o que deve fazer com o casamento, se deveria pedir demissão, como superar uma perda ou por que está se sentindo deprimido, não é porque estou sentada na frente de uma sala de Yoga que de repente tenho uma resposta melhor do que qualquer outra pessoa.
Posso conversar como ser humano. Posso dizer que sinto muito pelo que ele está vivendo. Posso compartilhar alguma coisa quando realmente fizer sentido e quando a relação permitir. Mas também posso simplesmente dizer: “Eu não sei.”
Inclusive, uma das coisas que escrevi nas minhas dicas para professores de Yoga é justamente que reconhecer o limite do próprio conhecimento não diminui a credibilidade de um professor.
Para mim, é muito mais responsável dizer que determinado assunto foge da minha área do que improvisar uma explicação apenas porque o aluno espera uma resposta.
E quando o professor também é terapeuta?
Essa é uma distinção particularmente importante porque existem muitos professores de Yoga que também têm outras formações.
Eu mesma também trabalho com Ayurveda e acupuntura. Isso não significa que toda pessoa que entra na minha aula de Yoga esteja automaticamente sendo atendida por mim nessas outras funções. Se existe uma consulta ou um tratamento, existe outro contexto, outra proposta e outro tipo de atendimento.
O mesmo vale para uma professora que também seja psicóloga, fisioterapeuta, médica, nutricionista ou qualquer outro profissional.
A formação não desaparece quando ela entra na sala de Yoga, é claro. Uma fisioterapeuta provavelmente observa movimento com conhecimentos que fazem parte da sua formação. Uma psicóloga não deixa de ter o repertório que possui. Mas isso não significa que os papéis devam se misturar sem que haja clareza.
Se uma pessoa é sua aluna de Yoga, aquela relação precisa continuar tendo os limites de uma aula de Yoga.
Existe diferença entre ensinar uma ferramenta e tratar uma condição
Uma professora pode ensinar uma técnica respiratória. Pode conduzir uma meditação. Pode trabalhar determinadas posturas, falar sobre atenção, explicar um conceito da filosofia do Yoga ou propor uma prática mais tranquila.
O que muda é a promessa que acompanha aquilo.
Existe uma diferença enorme entre dizer “hoje vamos fazer uma prática mais lenta e observar a respiração” e dizer “essa prática vai tratar sua ansiedade”.
Da mesma forma, eu teria bastante cuidado com afirmações como “essa postura libera trauma”, “essa sequência cura depressão”, “esse pranayama regula seu sistema nervoso” ou “essa dor está relacionada a uma emoção que você não conseguiu processar”.
Quando o professor começa a fazer esse tipo de afirmação, ele deixa de apenas ensinar aquilo que conhece dentro do Yoga e começa a atribuir diagnósticos, mecanismos e efeitos terapêuticos que exigem muito mais cuidado.
Não precisamos prometer tanto para que uma aula tenha valor.
O professor também precisa colocar limites fora da sala
Essa confusão de papéis não acontece apenas durante a aula.
Às vezes começa no WhatsApp.
O aluno manda uma mensagem contando uma situação difícil. Você responde. Depois vem outra. E mais outra. Quando percebe, está mantendo uma conversa de quarenta minutos sobre a vida pessoal daquela pessoa às dez horas da noite.
Se isso acontece uma vez com alguém que está passando por uma situação excepcional, talvez não seja um problema. Mas, quando passa a fazer parte da relação, vale olhar com atenção.
O fato de sermos professores acolhedores não significa que precisamos estar emocionalmente disponíveis para todos os alunos a qualquer hora.
Horário de resposta, canal de atendimento, tempo depois da aula e tipo de conversa que você consegue sustentar também fazem parte dos limites profissionais.
No artigo Como demitir um aluno de Yoga, falei sobre como algumas relações começam a exigir uma quantidade de atenção desproporcional do professor. Muitas vezes, quando chegamos a esse ponto, os limites já estavam confusos muito antes de surgir um grande conflito.
Encaminhar não é abandonar o aluno
Às vezes, a maneira mais responsável de ajudar alguém é reconhecer que aquela pessoa precisa de um atendimento que você não oferece.
Isso não precisa ser feito de maneira dramática.
Se um aluno traz repetidamente uma questão emocional que está afetando sua vida, você não precisa diagnosticá-lo para sugerir que talvez seja interessante procurar um profissional adequado para conversar sobre aquilo.
Também não precisa saber exatamente qual tratamento aquela pessoa deve fazer. O encaminhamento pode ser simples: “Isso que você está me contando parece estar te trazendo bastante sofrimento. Acho importante você conversar com um profissional de saúde mental que consiga te acompanhar de uma maneira que eu não consigo dentro de uma aula de Yoga.”
Existe muita responsabilidade nessa frase.
Você reconhece o sofrimento sem explicar sua causa. Reconhece seu próprio limite sem abandonar a pessoa. E não cria a ideia de que a prática que você oferece deveria dar conta de tudo.
Também existe responsabilidade do aluno nessa relação
Apesar de este texto estar principalmente voltado para professores, acho importante falar sobre o outro lado.
O aluno também precisa compreender que gostar muito de um professor, confiar nele ou sentir que determinada prática lhe faz bem não significa que aquela pessoa tenha competência para orientar todas as áreas da sua vida.
Professor de Yoga continua sendo uma pessoa.
Ele pode errar, ter opiniões ruins, não conhecer determinado assunto e oferecer uma orientação que não serve para você. O fato de alguém conduzir uma prática bonita ou conhecer profundamente textos tradicionais não transforma automaticamente essa pessoa em autoridade sobre saúde, relacionamentos, dinheiro, alimentação ou decisões pessoais.
Eu acho especialmente importante lembrar disso num contexto em que alguns professores acabam ocupando posições muito hierárquicas e os alunos passam a tratar suas opiniões como verdades.
Uma relação saudável com um professor também preserva a autonomia do aluno.
O cuidado começa justamente quando reconhecemos o limite
Durante muito tempo, a imagem de um bom professor de Yoga esteve associada a alguém extremamente disponível, acolhedor, paciente e capaz de receber qualquer pessoa com qualquer questão.
Hoje eu penso de outra maneira.
Acolhimento sem limite pode facilmente virar invasão de função. E, em alguns casos, pode até criar uma relação de dependência que não faz bem nem para o professor nem para o aluno.
Eu quero que meus alunos saibam que podem conversar comigo. Quero conhecer as pessoas que frequentam minhas aulas e entender informações que sejam importantes para a prática. Quero perceber quando alguém não está bem e adaptar aquilo que precisar ser adaptado.
Mas não preciso transformar cada conversa em atendimento, cada emoção em algo a ser interpretado e cada dificuldade pessoal em uma questão que eu devo resolver.
Talvez justamente aí esteja uma das diferenças entre querer ajudar todo mundo e aprender a trabalhar profissionalmente com pessoas.
Professor de Yoga ensina Yoga.
E isso, quando é bem feito, já é um trabalho grande o suficiente.






Comentários