Por que eu não faço a prática inteira junto com os meus alunos de Yoga
- Nathalia Morgana

- há 2 dias
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Quando comecei a dar aulas de Yoga, eu fazia praticamente a aula inteira junto com os meus alunos. E acho que isso acontece com muitos professores no começo.

Eu tinha acabado de sair da posição de aluna para ocupar o lugar de professora e, apesar de ter estudado, feito formação e preparado minhas aulas, ainda existia aquela insegurança normal de quem está começando. Demonstrar me dava uma espécie de apoio. Eu fazia a postura, os alunos olhavam para mim e copiavam. Durante algum tempo, achei que uma boa professora de Yoga precisava fazer isso.
Hoje, depois de muitos anos dando aula, minha forma de ensinar é bem diferente. Eu continuo demonstrando posturas quando considero necessário. Posso entrar em um asana para mostrar um detalhe, demonstrar uma transição, explicar uma adaptação ou apresentar alguma coisa que acredito que ficará mais clara visualmente. Mas eu não faço mais a prática inteira junto com os meus alunos.
E existem algumas razões para isso.
Se eu estou fazendo a aula, deixo de observar muita coisa
Uma das coisas que a experiência em sala me ensinou é que observar também faz parte de dar aula de Yoga. Quando estou no meu tapete fazendo uma postura, principalmente em uma sequência mais dinâmica, minha atenção inevitavelmente fica um pouco mais voltada para o meu próprio corpo. Quando estou fora dele, consigo olhar a sala. Consigo perceber quem ficou perdido em uma transição, quem está prendendo a respiração, quem escolheu uma variação que talvez não seja a melhor naquele momento, quem precisa de uma adaptação ou quem simplesmente precisa de alguns segundos a mais antes de seguir.
Também consigo perceber coisas que dificilmente perceberia fazendo a sequência inteira junto. Às vezes não preciso falar absolutamente nada. Basta observar para entender como aquela turma está naquele dia e decidir se continuo exatamente com a aula que planejei ou se preciso modificar alguma coisa.
Porque uma sequência pode estar muito bem construída no papel e ainda assim precisar ser adaptada quando encontra os corpos reais que estão na sala.
Para mim, isso também é ensinar.
Eu quero que meus alunos consigam praticar sem precisar olhar para mim o tempo inteiro
Outra coisa que fui desenvolvendo ao longo dos anos foi a minha maneira de conduzir verbalmente uma aula. Eu gosto da ideia de que um aluno consiga acompanhar boa parte da prática apenas me ouvindo. Isso exige bastante do professor.
Você precisa saber explicar uma postura de maneira clara, pensar na ordem das informações, perceber quando falou demais, quando falou de menos, dar tempo para que o aluno encontre o movimento e entender que nem todo silêncio precisa ser preenchido.
Essa percepção ficou ainda mais forte quando tive uma aluna com deficiência visual. Eu precisava dar uma aula que também funcionasse para alguém que não poderia simplesmente olhar para o meu corpo e copiar aquilo que eu estava fazendo. Foi uma experiência muito importante para a minha forma de ensinar.
Comecei a prestar ainda mais atenção nas palavras que usava, na maneira como descrevia movimentos e em quanto a minha aula dependia ou não de uma referência visual. E fui percebendo uma coisa interessante: quando a condução ficava melhor para ela, muitas vezes ficava melhor para todo mundo.
O aluno começava a ouvir mais, perceber mais o próprio corpo e depender menos de olhar pra mim antes de fazer qualquer movimento.
Até hoje penso bastante nisso quando preparo e conduzo minhas aulas.
Copiar o corpo do professor nem sempre ajuda o aluno
Existe ainda outra questão que considero importante, principalmente para quem está começando a praticar Yoga: quando o professor demonstra o tempo todo, é muito fácil o aluno entender aquele corpo como uma espécie de referência de como a postura deveria ficar. Só que aquele professor provavelmente pratica há muitos anos. O corpo dele tem uma história, uma mobilidade, determinadas proporções, facilidades, limitações e adaptações que pertencem a ele. O aluno tem outro corpo.
Se uma pessoa que começou a praticar há poucas semanas olha para uma professora que pratica há dez, quinze ou vinte anos, ela pode tentar reproduzir visualmente a mesma forma sem ainda ter construído o caminho necessário para chegar até ali. Por isso eu faço questão de oferecer possibilidades durante a aula.
Às vezes um aluno vai colocar a mão no chão. Outro vai usar um bloco. Outro vai permanecer um pouco mais alto. E alguém pode simplesmente perceber que aquela postura não é uma boa escolha para o seu corpo naquele dia.
Não espero que todas pessoas dentro de uma sala façam todas as posturas exatamente iguais. Meu trabalho é ajudar cada uma delas a entender o que está fazendo.
Quando o aluno deixa de olhar para o professor o tempo inteiro, começa também a desenvolver um pouco mais dessa autonomia.
Isso significa que eu nunca demonstro uma postura?
Não. Eu demonstro bastante. A diferença está em entender quando a demonstração realmente ajuda.
Existem posturas que são muito mais fáceis de compreender quando mostramos visualmente. Existem transições que eu prefiro explicar primeiro e depois demonstrar. Em algumas situações mostro uma adaptação específica. Em outras, entro rapidamente na postura para chamar atenção para um detalhe. Depois saio e volto a observar.
Com o tempo, fui entendendo que demonstrar e fazer a aula inteira são coisas diferentes. Posso usar meu corpo como uma ferramenta didática sem precisar transformar aquela aula na minha própria prática pessoal. E essa separação também foi muito importante para mim como professora.
Teve uma época em que eu chegava a dar mais de oito aulas por dia
A pandemia acabou deixando isso muito evidente para mim. Durante um período, eu dava mais de oito aulas online em um mesmo dia. E, no começo, eu fazia muita coisa junto.
Agora imagina o que significa repetir várias vezes ao dia as mesmas posturas, transições, Chaturangas, permanências e movimentos porque, além de dar a aula, você está fisicamente fazendo aquela aula. Meu corpo começou a sentir.
Foi quando precisei olhar também para uma questão que acho que nós, professores de Yoga, precisamos discutir mais: como construir uma carreira que o nosso próprio corpo consiga sustentar por muitos anos?
Dar aula é o meu trabalho. Eu quero continuar ensinando Yoga por muito tempo. E não faria sentido passar os meus dias ensinando meus alunos a respeitarem limites, perceberem o corpo e reconhecerem quando precisam diminuir o ritmo enquanto eu mesma ignorava tudo isso porque acreditava que precisava praticar fisicamente durante cada aula que ministrava.
Foi também nessa época que passei a separar ainda mais claramente a minha prática pessoal da prática dos meus alunos. Quando dou aula, estou trabalhando. Minha prática acontece em outro momento. É o momento em que posso estar no meu tapete sem precisar observar ninguém, pensar na sequência, ajustar uma instrução ou perceber o que está acontecendo ao meu redor. Ali, finalmente, eu sou só aluna.
Minha forma de dar aula mudou muito ao longo dos anos
Hoje eu consigo olhar para a professora que fui no início e entender perfeitamente por que eu demonstrava tanto. Eu precisava daquela referência. Conforme fui acumulando horas de sala, conhecendo corpos diferentes, ensinando iniciantes, alunos mais experientes, pessoas com limitações, pessoas com deficiência e turmas completamente diferentes umas das outras, minha maneira de ensinar também foi mudando.
Minha voz ficou mais precisa. Minha observação ficou melhor. Passei a confiar mais no silêncio. Aprendi a demonstrar quando considero importante e a sair da postura quando minha presença é mais útil observando a turma.
Nada disso aconteceu de uma hora para outra. Dar aula também é uma prática. A gente estuda durante a formação, claro, mas existe um tipo de conhecimento que só aparece depois de muitas horas dentro de uma sala.
É quando você percebe que saber fazer uma postura e saber ensiná-la são habilidades diferentes. Talvez essa seja uma das maiores mudanças que aconteceram na minha forma de enxergar meu trabalho como professora de Yoga.
Hoje, quando entro em uma sala, eu não preciso provar a minha prática para os meus alunos. Preciso estar disponível para ensinar a prática deles. E, muitas vezes, a melhor maneira de fazer isso é justamente sair do meu tapete e observar.





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