O aluno quer ser visto: o que faz diferença em uma aula de Yoga
Atualizado: 30 de ago.
Uma das coisas que aprendi depois de muitos anos dando aulas de Yoga é que o aluno percebe quando o professor está realmente olhando para a turma. E não estou falando de ficar procurando erros nas posturas, nem de oferecer correções o tempo inteiro. Estou falando de saber quem está ali, perceber como aquela pessoa está acompanhando a aula e conseguir ajustar a própria condução a partir do que está acontecendo de verdade na sala.
Quando começamos a dar aula, grande parte da nossa atenção fica ocupada com a própria condução. A gente precisa lembrar da sequência, das transições, das instruções, do tempo, da música e do que vem depois. Isso é compreensível, principalmente nos primeiros anos. Só que, enquanto estamos tentando executar perfeitamente a aula que planejamos, existem pessoas na nossa frente tentando acompanhar aquilo que estamos propondo, e essas pessoas também estão nos dando informações o tempo inteiro.
Alguém não entendeu uma instrução. Outro aluno está tentando acompanhar olhando para quem está ao lado. Uma pessoa que normalmente faz determinada postura hoje escolheu não fazer. Um iniciante está completamente perdido, mas não pergunta nada. Outro aluno já encontrou uma adaptação e está muito bem nela. Ensinar começa a mudar quando conseguimos tirar um pouco da atenção da aula que está na nossa cabeça e colocá-la na turma que está realmente acontecendo. Para mim, é aí que entra essa ideia de que o aluno quer ser visto.

Ser visto não significa receber atenção o tempo inteiro
Uma aula coletiva não é uma aula particular com várias pessoas acontecendo ao mesmo tempo. Se tenho uma turma, preciso conduzir o grupo, e isso significa que não consigo interromper a aula a cada postura para atender individualmente cada pessoa. Nem acho que deveria. Também não quero criar um ambiente em que o aluno dependa constantemente da minha aprovação para saber se está fazendo alguma coisa “certa”.
Quando digo que o aluno quer ser visto, estou falando de demonstrar, ao longo da experiência, que aquela pessoa não é anônima para quem está ensinando. Às vezes isso acontece quando você sabe o nome dela. Às vezes quando lembra que ela comentou sobre um desconforto no joelho e, antes de determinada postura, já oferece uma alternativa sem expô-la diante da turma. Pode acontecer quando percebe que alguém está perdido e repete a instrução para todos, em vez de apontar aquela pessoa como quem não entendeu, ou quando vê que um aluno encontrou uma adaptação que funciona e simplesmente deixa que ele continue, sem tentar trazê-lo de volta para a forma que você estava demonstrando.
São acontecimentos pequenos dentro de uma aula, mas eles comunicam uma coisa importante: eu sei que você está aqui.
Aprender o nome dos alunos faz diferença
Pode parecer uma coisa muito simples, mas eu considero importante saber o nome das pessoas que frequentam minhas aulas, principalmente quando trabalhamos com grupos menores. Usar o nome de alguém cria uma relação completamente diferente de passar meses dizendo apenas “você aí da frente” ou tentando chamar a atenção da pessoa pelo olhar.
Isso também ajuda em situações práticas. Se eu digo “Marina, experimenta colocar o bloco aqui” ou “João, naquela variação que fizemos na semana passada talvez fique mais confortável”, existe ali uma continuidade na relação pedagógica. Não precisa acontecer o tempo inteiro e eu evitaria transformar a aula numa sequência de nomes sendo chamados, mas lembrar quem aquela pessoa é demonstra atenção.
O mesmo vale para informações realmente relevantes para a prática. Se um aluno me contou que está se recuperando de uma lesão, eu quero me lembrar disso. Se é a primeira aula de alguém, eu quero saber. Se uma aluna está grávida, obviamente essa informação importa para a maneira como vou conduzir algumas propostas. Isso é bem diferente de sentir que preciso guardar detalhes da vida pessoal de todo mundo. O professor não precisa saber tudo sobre o aluno para prestar atenção nele.
A primeira aula merece atenção especial
Eu tenho um cuidado maior com quem está chegando pela primeira vez porque quem já frequenta a turma conhece a dinâmica da aula, entende melhor a minha linguagem e provavelmente já sabe quais adaptações costuma utilizar. Um aluno novo ainda não sabe nada disso. Ele pode nem conhecer os nomes das posturas, talvez não saiba o que significa quando peço para colocar dois blocos na frente do tapete e pode estar tentando descobrir, ao mesmo tempo, se precisa tirar a meia, onde deixar o celular e se vai conseguir acompanhar todo mundo.
Existe uma diferença entre dizer “cada um respeite seus limites” e realmente oferecer condições para que uma pessoa nova consiga fazer isso. Por isso, nas primeiras aulas eu observo mais. Não para avaliar a pessoa, mas para perceber quanto de informação ela está conseguindo receber e onde talvez precise de uma orientação adicional.
Uma experiência ruim na primeira aula pode fazer alguém concluir que “não serve para Yoga”, quando na verdade aquela pessoa simplesmente não recebeu instruções suficientes para entender o que estava acontecendo.
Observar é diferente de vigiar
Existe um ponto delicado aqui porque o aluno quer ser percebido, mas ninguém quer passar sessenta minutos sentindo que está sendo examinado, principalmente quem está começando. Imagine entrar numa aula de Yoga, estar tentando descobrir onde colocar as mãos e perceber que a professora está olhando fixamente para você o tempo inteiro. Isso pode ser bastante desconfortável.
Eu prefiro observar a turma de maneira ampla. Caminhar quando faz sentido, mudar meu ponto de visão e perceber o que está acontecendo sem transformar cada diferença em uma intervenção. Isso se conecta diretamente com uma coisa sobre a qual já escrevi aqui no blog:
Observar não significa procurar constantemente alguma coisa para corrigir. Muitas vezes eu observo um aluno e concluo justamente que não preciso fazer nada. Essa também é uma decisão pedagógica.
A atenção ao aluno muda a maneira de dar instruções
Uma das vantagens de olhar para a turma é perceber se aquilo que você acabou de explicar funcionou. Isso parece óbvio, mas nem sempre fazemos. O professor dá uma instrução, ninguém entende e ele continua falando como se tudo estivesse acontecendo exatamente como tinha imaginado.
Quando olho para a turma e percebo que três pessoas fizeram algo completamente diferente do que eu propus, minha primeira pergunta não é necessariamente por que elas estão fazendo errado. Pode ser: será que eu expliquei mal? Talvez minha instrução tenha sido confusa, talvez eu tenha usado um termo que aquela turma não conhece, falado rápido demais ou estivesse demonstrando para um lado enquanto explicava o outro.
Uma turma oferece feedback sobre nossa didática o tempo inteiro, mesmo quando ninguém fala nada. Por isso, aprender a olhar para os alunos também ajuda o professor a ensinar melhor.
Nem todo aluno quer ser visto da mesma maneira
Essa é outra coisa que a experiência ensina. Existem alunos que gostam de receber uma orientação individual e outros que ficam constrangidos quando o professor fala diretamente com eles durante a aula. Alguns gostam de aproximação, outros preferem que você explique de longe. Existem pessoas que adoram conversar depois da prática e outras que terminam a aula, guardam o tapete e vão embora.
Eu não considero uma dessas maneiras melhor do que a outra. Parte de conhecer a turma é também perceber essas diferenças. Não preciso obrigar alguém a criar intimidade comigo para demonstrar que estou atento à sua prática. Às vezes o aluno que quase nunca conversa sabe perfeitamente que é visto porque, quando precisa de alguma coisa, eu percebo.
Adaptar a aula não significa fazer tudo que cada aluno pede
Prestar atenção individualmente também não significa mudar a aula inteira toda vez que alguém apresenta uma preferência. Esse equilíbrio é uma das dificuldades de trabalhar com grupos. Posso ter uma pessoa com desconforto no punho, outra que não ajoelha, alguém iniciando e um aluno mais experiente dentro da mesma turma. Meu trabalho é pensar em maneiras de conduzir essa aula para que essas pessoas consigam participar, mas continuo dando uma aula coletiva.
Isso significa que algumas orientações serão gerais e outras individuais. Algumas adaptações serão oferecidas para todos e, em outros momentos, vou me aproximar de uma pessoa específica. O professor precisa aprender a administrar sua atenção porque, se uma pessoa recebe metade da aula enquanto outras sete praticamente desaparecem, existe outro problema. Ver um aluno também significa não deixar de ver os demais.
Existe uma maneira de orientar sem expor
Se percebo que alguém está fazendo uma postura de uma maneira que merece uma orientação, nem sempre preciso falar o nome dessa pessoa. Às vezes posso simplesmente repetir a instrução para a turma inteira. Se vejo um aluno olhando para os lados porque não entendeu, posso demonstrar novamente para todos. Se percebo várias pessoas com a mesma dificuldade, provavelmente o problema já deixou de ser individual e passou a ser uma questão da minha explicação.
Isso protege o aluno de uma exposição desnecessária e mantém a aula fluindo. Existem momentos em que uma orientação individual é a melhor escolha, claro, mas ela não precisa sempre acontecer em voz alta para que todo mundo escute. A forma como corrigimos ou orientamos também faz parte da experiência que estamos criando.
O aluno percebe quando a professora está ocupada demais consigo mesma
Já estive em aulas em que parecia que o professor estava vivendo a própria prática enquanto os alunos tentavam acompanhá-lo. A sequência podia ser ótima e as posturas podiam ser bonitas, mas praticamente não havia observação da turma.
É uma das razões pelas quais acredito que o professor não precisa fazer a prática inteira junto com os alunos. Quando estou ocupada executando cada postura, respirando no meu ritmo e vivendo minha própria sequência, sobra muito menos atenção para perceber o que está acontecendo na sala, e essa atenção é uma parte importante do meu trabalho.
Da mesma maneira, um planejamento excessivamente complexo pode atrapalhar. Se preparei uma aula tão elaborada que preciso gastar toda a minha energia lembrando o que vem depois, talvez não consiga observar suficientemente as pessoas que estão fazendo aquela aula. Foi também por isso que, ao escrever sobre como montar uma aula de Yoga, coloquei tanto peso no objetivo, na coerência e na capacidade de adaptar aquilo que foi planejado. Planejamento deveria liberar atenção para ensinar, não consumir toda ela.
Ver o aluno não significa interpretar o aluno
Depois da revisão que fiz no texto Seu professor de Yoga não é seu terapeuta, acho importante deixar isso muito claro aqui também. Eu posso perceber que uma pessoa está fazendo muito esforço numa postura, mas isso não significa que ela “faz esforço demais na vida”. Posso notar que um aluno tem dificuldade para descansar em Savasana sem concluir que ele “não sabe desacelerar”. Também posso perceber que alguém evita determinada postura sem precisar decidir que existe medo, trauma, bloqueio emocional ou alguma questão psicológica por trás disso.
Essa tendência de transformar tudo o que acontece no tapete em uma metáfora sobre a vida do aluno me incomoda cada vez mais. Observar serve para ensinar melhor. Se começo a utilizar aquilo que vejo para interpretar a personalidade ou a história da pessoa, já estou indo para outro lugar.
Existe uma diferença entre atenção e dependência
Um bom professor oferece atenção suficiente para que o aluno consiga praticar com mais segurança e compreensão, mas, ao mesmo tempo, deveria permitir que essa pessoa se torne progressivamente mais autônoma. Se o aluno precisa olhar para mim antes de cada movimento, talvez eu precise diminuir a demonstração. Se pergunta o tempo inteiro se está “certo”, posso ajudá-lo a desenvolver critérios próprios de percepção. Se já sabe qual adaptação funciona para seu corpo, não preciso pedir que espere minha autorização para utilizá-la.
Eu escrevi sobre isso também no texto sobre autonomia no Yoga, porque acho que existe uma linha muito interessante aqui: o aluno quer ser visto, mas isso não significa que queira, ou que deva, permanecer dependente do olhar da professora. Uma relação pedagógica saudável consegue oferecer presença sem retirar espaço.
Muitas vezes, são coisas pequenas que fazem o aluno querer voltar
Quando pensamos em melhorar nossas aulas, é fácil acreditar que precisamos de sequências mais criativas, aulas temáticas, músicas melhores, posturas diferentes ou alguma experiência nova. Tudo isso pode contribuir, mas algumas das coisas que fazem uma pessoa gostar de uma aula são muito mais simples.
A professora lembrou meu nome, percebeu que era minha primeira aula, não me deixou perdido, ofereceu uma alternativa quando precisei, não me expôs na frente da turma, não tentou me empurrar para uma postura que eu não queria fazer, notou que eu já sabia me adaptar e me deixou praticar ou perguntou depois se aquela modificação tinha funcionado.
São detalhes que, quando acontecem de maneira consistente, ajudam a construir confiança.
Para mim, é isso que significa dizer que o aluno quer ser visto. Não significa que precisamos saber tudo sobre ele, analisar seu comportamento, corrigir cada movimento ou oferecer atenção exclusiva. Significa lembrar que não estamos ensinando uma sequência para uma sala cheia de corpos. Estamos ensinando pessoas, e boa parte da experiência de uma aula começa quando conseguimos olhar para elas.






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