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A rotina espiritual que me ajudou a atravessar um período de ansiedade e esgotamento

23 de fev. de 2022
7 min de leitura

Atualizado: 31 de ago.

Houve um período em que eu me senti muito cansada mentalmente. Foram anos de muita incerteza, mudanças, excesso de notícias, medo, isolamento e aquela sensação de que havia coisas demais acontecendo ao mesmo tempo e muito pouco sob o nosso controle. Eu me lembro de sentir um esgotamento que não era exatamente físico. Eu continuava trabalhando, fazendo minhas coisas, mantendo a rotina, mas por dentro havia uma inquietação constante, uma dificuldade de desligar a mente e uma sensação de saturação.


Foi nessa época que algumas práticas que já faziam parte da minha vida ganharam ainda mais importância. Meditação, respiração, escrita, oráculo, oração e uma rotina matinal mais intencional começaram a funcionar como pontos de apoio. Não como uma maneira de “curar” ansiedade, muito menos como substitutos de acompanhamento psicológico ou médico quando ele é necessário, mas como recursos que me ajudavam a começar o dia com mais presença e a não entrar imediatamente no ritmo das notícias, das mensagens e das demandas externas.


Eu não diria que essa rotina fazia a ansiedade desaparecer. O que ela fazia era criar pequenos espaços em que eu conseguia me perceber melhor, reconhecer como estava e lembrar que eu não precisava passar o dia inteiro sendo carregada por tudo aquilo que acontecia dentro e fora de mim.



Criar uma manhã antes de entregar minha atenção ao mundo


Uma das coisas que mais me ajudaram naquele período foi perceber que a maneira como eu começava o dia mudava bastante a forma como eu atravessava as horas seguintes. Quando eu acordava e imediatamente entrava em notícias, mensagens, redes sociais e assuntos externos, parecia que a minha mente já começava o dia ocupada por tudo aquilo que estava acontecendo fora de mim.


Então fui criando uma rotina matinal simples, mas muito consistente. Eu meditava, fazia alguns minutos de respiração, escrevia e, em alguns períodos, tirava uma carta de oráculo. Não era uma rotina enorme nem uma lista de tarefas espirituais que eu precisava cumprir para me sentir uma pessoa melhor. Era justamente um momento em que eu tentava reduzir a quantidade de estímulos antes de começar a responder ao mundo.


Essa rotina foi mudando ao longo dos anos, mas uma coisa permaneceu: eu continuo gostando de ter algum espaço entre acordar e entrar completamente nas demandas do dia. Para mim, esse intervalo faz diferença porque me permite começar por dentro antes de começar por fora.



A meditação não precisa fazer a mente parar


Havia dias em que eu fechava os olhos e a mente parecia ainda mais barulhenta. Pensamentos vinham em sequência, eu lembrava de coisas que precisava fazer, voltava para alguma notícia que tinha lido, antecipava problemas que ainda nem tinham acontecido. Se eu tivesse usado como critério “consegui esvaziar a mente?”, provavelmente teria concluído várias vezes que a meditação não estava funcionando.


Mas não era esse o ponto. A prática me ajudava primeiro a perceber o estado em que eu estava. Às vezes a primeira coisa que eu reconhecia era justamente o quanto estava acelerada. Aos poucos, eu voltava para a respiração, para um mantra ou simplesmente para a sensação de estar sentada ali. Em alguns dias isso produzia uma mudança muito perceptível. Em outros, bem menos. Ainda assim, aquele momento já interrompia por alguns minutos o fluxo contínuo de estímulos e me dava a oportunidade de observar a mente sem precisar obedecer imediatamente a tudo o que ela produzia. Com o tempo, aprendi a valorizar muito mais essa função da meditação do que a ideia de ficar sem pensamentos.


O oráculo como uma ferramenta de reflexão


Outra coisa que fazia parte da minha rotina naquele período era o uso de cartas de oráculo. Eu sei que esse tema pode ser entendido de maneiras muito diferentes, mas, para mim, o oráculo nunca precisou funcionar como uma ferramenta para prever exatamente o que iria acontecer. O que eu gostava era do espaço de reflexão que ele criava.


Eu tirava uma carta e observava o que aquela mensagem despertava em mim. Às vezes ela me fazia olhar para uma situação de outra maneira. Em outros dias, simplesmente trazia uma pergunta que eu provavelmente não teria feito sozinha. O objeto, por si só, não fazia o trabalho, mas criava um contexto para que eu parasse alguns minutos e direcionasse minha atenção para algo que talvez estivesse passando despercebido.


Acho que essa é uma das razões pelas quais continuo gostando de rituais. Eles criam uma moldura para coisas que poderiam acontecer de maneira automática. Posso simplesmente pensar sobre meu dia enquanto tomo café ou posso sentar, tirar uma carta, abrir o caderno e dedicar alguns minutos de verdade àquilo que está acontecendo comigo. A diferença, muitas vezes, está na presença que colocamos naquele momento.


Escrever me ajudava a organizar aquilo que estava muito difuso


A escrita também passou a ocupar um lugar importante nessa rotina. Quando existe muita coisa acontecendo na mente ao mesmo tempo, tudo parece ter o mesmo tamanho e a mesma urgência. Colocar algumas dessas coisas no papel me ajudava a separar melhor o que eu estava sentindo, aquilo que realmente estava acontecendo e aquilo que eu estava apenas antecipando.


Nem sempre eu escrevia páginas e páginas. Muitas vezes eram poucas linhas. Eu podia me perguntar o que estava me preocupando naquele dia, se havia alguma coisa concreta que eu pudesse fazer sobre aquilo, o que estava fora do meu controle, o que apesar de tudo continuava funcionando bem e do que eu precisava naquele momento. Essas perguntas não resolviam todos os problemas, mas ajudavam a diminuir aquela sensação de um bloco único de preocupações ocupando a cabeça inteira.


Eu também gostava de registrar coisas boas que estavam acontecendo. Não como uma obrigação de pensar positivo ou negar aquilo que estava difícil, mas como uma maneira de ampliar a percepção. Uma fase complicada da vida não faz com que tudo seja ruim ao mesmo tempo. Conseguir enxergar aquilo que continua bonito, seguro ou funcionando não anula o sofrimento; apenas impede que ele ocupe sozinho todo o campo de visão.


A oração como um gesto de entrega


A oração talvez seja uma das práticas que mais claramente me lembram que eu não preciso resolver tudo sozinha. Quando estamos ansiosos, existe muitas vezes uma tentativa quase automática de antecipar, prever e controlar. Queremos saber o que vai acontecer, se estamos tomando a decisão certa, como determinada situação vai terminar e o que precisamos fazer para impedir que alguma coisa saia do nosso controle. Só que existe uma quantidade enorme de coisas na vida sobre as quais nós simplesmente não temos poder.


Para mim, rezar é também reconhecer isso. É um gesto de entrega. É tirar por alguns instantes de mim a responsabilidade de encontrar uma solução para absolutamente tudo e confiar que existe algo maior olhando por nós, mesmo quando eu não consigo compreender exatamente por que determinada coisa está acontecendo.


Existe uma ideia que me traz muita paz dentro dessa prática: confiar que aquilo que acontece também faz parte de um caminho que nem sempre conseguimos enxergar inteiro enquanto estamos vivendo. Isso não significa que eu fique passiva diante da vida ou que deixe de fazer aquilo que está ao meu alcance. Eu faço o que posso, tomo decisões, assumo minhas responsabilidades e ajo quando preciso agir. Mas existe um ponto em que termina aquilo que depende de mim. E, quando chego nesse ponto, a oração me ajuda a entregar o restante.


É confiar que nem tudo precisa fazer sentido imediatamente. Que algumas coisas só conseguimos compreender muito tempo depois e outras talvez nunca compreendamos completamente. E que, mesmo assim, podemos escolher acreditar que existe uma ordem maior do que aquela que conseguimos enxergar naquele momento. Para mim, a fé entra justamente aí. Não como certeza de que tudo vai acontecer da maneira que eu gostaria, mas como confiança de que eu não estou sozinha tentando administrar cada detalhe da existência.



Espiritualidade não deveria se tornar outra cobrança


Quando estamos atravessando um período difícil, é muito fácil transformar até as práticas de cuidado em novas obrigações. Precisamos meditar todos os dias, fazer Yoga, escrever, respirar, acordar cedo, pensar positivo, manter a energia boa e cumprir uma quantidade enorme de coisas que supostamente demonstrariam que estamos cuidando de nós. De repente, a espiritualidade que deveria oferecer apoio vira mais uma área da vida em que podemos nos sentir insuficientes.


Eu não penso assim. Há dias em que faço toda a minha rotina e há dias em que faço apenas uma parte. Às vezes meditar parece muito natural; em outros momentos eu prefiro me movimentar antes. Existem períodos em que escrevo bastante e outros em que quase não abro o caderno. A prática precisa conseguir acompanhar a vida real. Se num dia tudo o que você consegue fazer é sentar por dois minutos antes de começar a trabalhar, esses dois minutos continuam sendo um espaço que você criou.


Nem toda ansiedade se resolve com uma prática espiritual


Também considero importante deixar uma coisa muito clara: ansiedade não significa falta de espiritualidade, pouca fé, energia baixa ou incapacidade de controlar a própria mente. Existem situações de ansiedade relacionadas ao contexto que estamos vivendo e existem transtornos de ansiedade que precisam ser avaliados e tratados adequadamente. Yoga, meditação, respiração, oração e outras práticas podem fazer parte de uma rede de cuidado, mas não precisam ocupar o lugar de psicoterapia, acompanhamento médico ou medicação quando esses recursos são indicados.


Eu gosto profundamente de Yoga, medito diariamente e a espiritualidade faz parte da minha vida, mas não preciso transformar essas práticas na resposta para absolutamente tudo. Reconhecer os limites daquilo que ensinamos e praticamos também faz parte de lidar com esses assuntos com responsabilidade. E, para mim, isso não diminui em nada o valor da espiritualidade. Pelo contrário. Permite que ela ocupe o lugar que realmente tem na minha vida, sem precisar competir com outras formas de cuidado.


O que essa rotina me ensinou


Muitas coisas mudaram desde aquele período. Minha vida mudou, minha rotina foi se transformando e, naturalmente, algumas práticas ganharam mais espaço enquanto outras aparecem em fases específicas. Mas continuo reconhecendo o valor desses pequenos rituais.


Ainda gosto de começar o dia antes de me entregar completamente ao mundo externo. Continuo meditando. Continuo valorizando momentos de silêncio, escrita, reflexão e oração. Continuo gostando de rituais não porque acredito que precisamos transformar cada parte da vida numa cerimônia elaborada, mas porque eles ajudam a marcar uma intenção e me lembram de sair do automático.


Talvez a função mais importante dessa rotina espiritual tenha sido justamente me ensinar que eu não precisava começar o dia tentando controlar tudo. Eu podia primeiro parar, respirar, perceber como eu estava, organizar aquilo que dependia de mim e entregar aquilo que não dependia. Os problemas não desapareciam e nem sempre as respostas chegavam quando eu gostaria, mas eu conseguia atravessar aquilo de um lugar diferente, com mais presença, mais confiança e, principalmente, com a sensação de que nem todo o peso da vida precisava estar somente nas minhas mãos.


1 comentário


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