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O que é Yoga? Significado, origem e o verdadeiro propósito da prática

2 de jun. de 2019
9 min de leitura

Atualizado: 2 de set.

Para responder o que é Yoga, às vezes ajuda começar pelo que ele não é. Yoga não se reduz a exercício físico, alongamento, ginástica ou acrobacia. Também não é uma prática de performance ou competição. Uma aula pode trabalhar força, mobilidade, equilíbrio e flexibilidade, e tudo isso pode fazer parte da experiência, mas nenhuma dessas coisas, sozinha, explica o Yoga. Quando reduzimos uma tradição tão ampla apenas àquilo que o corpo consegue fazer, acabamos olhando somente para uma pequena parte do caminho.


Yoga também não é uma religião, embora tenha surgido e se desenvolvido dentro do contexto espiritual, religioso e filosófico da Índia. Ao longo de sua história, encontramos Yoga relacionado a diferentes tradições indianas, entre elas hinduísmo, budismo e jainismo. Isso é diferente de dizer que alguém precisa se converter a determinada religião para praticar Yoga. É possível praticar sem adesão religiosa, mas também não acho correto retirar do Yoga suas raízes espirituais para transformá-lo simplesmente numa atividade física.


Talvez uma das dificuldades de responder “o que é Yoga?” esteja justamente aí. Estamos falando de uma tradição muito antiga, que atravessou diferentes períodos, textos, escolas e linhas filosóficas. Dependendo da fonte que estudamos, encontramos ênfases diferentes: meditação, disciplina da mente, libertação, práticas respiratórias, trabalho com o corpo, devoção, conhecimento, ação, concentração. Por isso, qualquer definição de Yoga em uma única frase será sempre uma simplificação.



O que significa a palavra Yoga?


A palavra Yoga vem da raiz sânscrita yuj. Uma de suas traduções mais conhecidas é “unir” ou “união”, e por isso é muito comum encontrarmos a explicação de que Yoga significa união. Essa tradução não está errada, mas sozinha também não explica toda a tradição.


Nos comentários clássicos aos Yoga Sūtras de Patañjali, por exemplo, Yoga é relacionado a samādhi, termo que pode ser compreendido como um estado de profunda concentração ou absorção meditativa. Isso já nos mostra que a ideia de Yoga não pode ser reduzida simplesmente à conhecida expressão “união de corpo e mente”.


Nos próprios Yoga Sūtras, Patañjali apresenta uma das definições mais importantes da tradição:


Yogaś citta-vṛtti-nirodhaḥ.


Podemos compreender citta como o campo mental, vṛttis como suas atividades, movimentos ou flutuações e nirodhaḥ como recolhimento, contenção ou cessação. Assim, uma possível tradução do sutra é: Yoga é o recolhimento das atividades da mente.


E o sutra seguinte é igualmente importante. Patañjali afirma que, quando isso acontece, draṣṭuḥ svarūpe avasthānam, ou seja, o observador se estabelece em sua própria natureza.


Para mim, esses dois sutras já nos levam muito mais perto daquilo que o Yoga está buscando do que a ideia de que praticamos apenas para alongar, fortalecer ou mesmo simplesmente relaxar.


Yoga é união de corpo e mente?


Essa é provavelmente uma das definições mais repetidas quando alguém tenta explicar o Yoga de maneira simples, mas eu acho importante fazer uma distinção.


Os textos tradicionais não apresentam como objetivo final do Yoga simplesmente “unir corpo e mente”. Patañjali está falando do recolhimento das atividades da mente e, mais adiante, de kaivalya, termo relacionado à libertação e ao estabelecimento da consciência em sua própria natureza. Em outras tradições encontramos outras formas de explicar essa realização.


No Hatha Yoga, por exemplo, a linguagem também passa por transformação e dissolução da mente. O Hatha Pradipika, ao falar sobre samādhi, utiliza inclusive a ideia da unidade entre jīvātman, a consciência individual, e paramātman, a Consciência suprema.


Então, quando encontramos a palavra “união” associada ao Yoga, estamos falando de algo muito mais profundo do que simplesmente fazer corpo e mente funcionarem juntos.


Essa explicação contemporânea pode ser útil como uma primeira aproximação, mas não deveria se tornar a definição completa da tradição.


B.K.S. Iyengar, por exemplo, descreve o Yoga também como um conjunto de técnicas que busca trazer harmonia e união do corpo com a mente e da mente com a alma. Acho uma maneira bonita e acessível de explicar a experiência do Yoga, principalmente para quem está chegando à prática. Mas gosto de colocar essa definição dentro de um contexto maior, porque os próprios textos tradicionais apontam para objetivos que ultrapassam essa integração.


Então o que é Yoga?


Talvez seja mais correto compreender o Yoga como um caminho composto por diferentes métodos e práticas.


Ele envolve meditação, disciplina da mente, ética, práticas respiratórias, trabalho com o corpo, concentração, contemplação e diferentes caminhos de realização espiritual. Dependendo da tradição estudada, algumas dessas dimensões recebem mais destaque do que outras.


É justamente por isso que reduzir Yoga aos asanas, as posturas, cria uma imagem muito limitada da prática.


Hoje os asanas ocupam um espaço enorme no Yoga contemporâneo. São aquilo que vemos nas fotografias, nas redes sociais e muitas vezes até na estrutura das aulas. Mas, quando olhamos para os textos tradicionais, percebemos que Yoga sempre foi muito maior do que o trabalho corporal.


Nos Yoga Sūtras, por exemplo, asana é apenas um dos oito membros do caminho apresentado por Patañjali. Antes dele aparecem yamas, princípios relacionados à maneira como nos relacionamos com o mundo, e niyamas, observâncias relacionadas à nossa própria conduta. Depois vêm prāṇāyāma, as práticas relacionadas ao prāṇa e à respiração, pratyāhāra, o recolhimento dos sentidos, dhāraṇā, a concentração, dhyāna, a meditação, e samādhi, a absorção meditativa.


Quando olhamos dessa forma, fica difícil continuar dizendo que Yoga é essencialmente uma prática de posturas.


Yoga é uma prática espiritual?


Eu considero o Yoga uma prática espiritual, mesmo sabendo que a palavra espiritualidade pode significar coisas diferentes para pessoas diferentes.


Dizer que Yoga é espiritual não significa dizer que todo praticante precisa acreditar em uma determinada divindade, seguir uma religião específica ou adotar todas as crenças de uma tradição indiana. Significa reconhecer que os objetivos do Yoga tradicional não se limitam ao corpo físico.


Os textos falam de autoconhecimento, natureza da consciência, libertação, sofrimento, apego, identificação com a mente, meditação e diferentes formas de realização. Estamos diante de perguntas que são muito maiores do que “como ficar mais flexível?”.


Por isso eu gosto de inverter uma frase que ouvimos bastante. Yoga não é, para mim, uma prática física com um componente espiritual. Se quisermos simplificar, eu diria que ele está muito mais próximo de uma prática espiritual que também utiliza o corpo.


O corpo importa. E no Hatha Yoga ele ganha uma importância enorme. Mas o corpo não é o ponto final da prática.


Qual é o objetivo do Yoga?


Essa é uma pergunta muito mais interessante do que simplesmente perguntar quais são os benefícios do Yoga.


Quando alguém começa a praticar, é perfeitamente legítimo buscar menos dor, mais mobilidade, melhora do equilíbrio, redução do estresse ou simplesmente um momento para desacelerar. Muitas pessoas chegam ao Yoga justamente por uma necessidade física ou emocional.


Eu não vejo problema nenhum nisso.


O problema aparece quando confundimos a porta de entrada com o destino.


Os objetivos apresentados pelos textos tradicionais são muito mais profundos. Em Patañjali encontramos o recolhimento das atividades da mente e, ao longo do caminho, a superação das causas do sofrimento e a busca por kaivalya, a libertação. No Hatha Yoga encontramos o uso do corpo, da respiração, da energia e da mente como parte de um processo de transformação que também conduz a estados meditativos mais profundos.


Os benefícios são consequências da prática, não o seu objetivo último.


Você pode se tornar mais flexível praticando Yoga.


Pode ficar mais forte.


Pode melhorar seu equilíbrio.


Pode dormir melhor.


Pode perceber redução do estresse.


Pode desenvolver uma relação mais consciente com o próprio corpo.


Tudo isso tem valor. Mas se pararmos aí, ainda estaremos falando apenas de uma parte daquilo que o Yoga oferece.


E quais são os benefícios do Yoga?


Hoje existem pesquisas mostrando benefícios interessantes da prática para diferentes aspectos da saúde e da qualidade de vida, especialmente em áreas como equilíbrio, força, mobilidade, estresse, sono e bem-estar. Naturalmente, os resultados dependem do tipo de prática, da frequência, das condições de cada pessoa e de muitos outros fatores.


Eu prefiro falar desses benefícios sem transformar Yoga numa promessa de solução para tudo.


Yoga não precisa curar todas as doenças, emagrecer todo mundo, desintoxicar o organismo ou resolver todos os problemas emocionais para continuar sendo uma prática extremamente valiosa.


Aliás, quanto mais estudo e ensino Yoga, menos sinto necessidade de exagerar seus benefícios para defendê-lo.


Existe algo muito poderoso em aprender a perceber o próprio corpo, observar a respiração, reconhecer os movimentos da mente, desenvolver concentração e criar momentos de silêncio num cotidiano em que somos estimulados o tempo inteiro.


E isso já é muita coisa.


Yoga é meditação?


A meditação ocupa um lugar central no Yoga tradicional.


Isso talvez pareça estranho para quem conheceu Yoga primeiro através de aulas predominantemente físicas, mas o caminho apresentado por Patañjali é profundamente relacionado à mente e à meditação.


Dhāraṇā, a concentração, dhyāna, a meditação, e samādhi, a absorção, aparecem como os membros mais internos desse caminho.


Mesmo o trabalho realizado anteriormente com corpo, respiração e sentidos pode ser compreendido como uma preparação para estados de maior estabilidade e interiorização.


Por isso, eu não gosto de apresentar a meditação como uma espécie de complemento opcional colocado nos últimos cinco minutos da aula. Ela pertence ao próprio coração da tradição.


Isso também nos ajuda a entender por que os asanas não deveriam ser vistos apenas como exercícios físicos. O corpo é organizado, estabilizado e refinado para que deixe de ser constantemente uma distração e possa servir ao aprofundamento da prática.


Yoga é um estilo de vida?


Essa não é exatamente uma definição encontrada dessa forma nos textos antigos, mas acredito que descreva muito bem aquilo que acontece quando o Yoga começa a ultrapassar os limites da aula.


Se os yamas falam da nossa relação com o mundo e os niyamas da nossa própria conduta, o Yoga já está nos mostrando que a prática não termina quando saímos do tapete.


Ahimsa, a não violência, não existe apenas quando respeitamos o limite do corpo numa postura. Satya, a verdade, não aparece somente quando reconhecemos honestamente nossa capacidade física naquele dia. Svādhyāya, o autoestudo, não precisa acontecer apenas durante uma meditação.


Esses princípios começam a atravessar escolhas, relações, hábitos e a maneira como reagimos às situações da vida.


É nesse sentido que eu gosto de dizer que Yoga pode se tornar uma forma de viver. Não porque precisamos transformar a vida numa performance espiritual, mas porque aquilo que observamos durante a prática começa a aparecer também fora dela.


Preciso ser flexível para praticar Yoga?


Não.


E talvez essa seja uma das ideias que mais afastam pessoas da prática sem necessidade.


Flexibilidade pode ser desenvolvida com o tempo, mas ela não é pré-requisito para praticar Yoga e muito menos mede a profundidade da prática de alguém.


Uma pessoa extremamente flexível não é necessariamente uma praticante mais avançada do que alguém que possui pouca mobilidade.


Se o objetivo do Yoga fosse alcançar determinadas formas corporais, bastaria medir quem consegue colocar a perna mais alto, permanecer mais tempo numa postura ou realizar o movimento mais complexo.


Mas o Yoga está interessado em outra coisa.


O corpo é um campo de investigação. O que acontece com a sua mente quando você encontra um limite? Você força? Se compara? Desiste imediatamente? Fica irritado? Consegue permanecer presente? Consegue perceber esforço desnecessário?


É aí que uma postura simples pode ensinar muito.


Yoga exige uma religião ou uma crença específica?


Não é necessário pertencer a uma religião para praticar Yoga.


Ao mesmo tempo, acho importante não cair no outro extremo e fingir que Yoga surgiu num espaço completamente separado da religião e da espiritualidade indianas. Não surgiu.


Sua história está profundamente ligada ao ambiente religioso e filosófico da Índia, às ideias de karma, libertação, meditação, renascimento, consciência, divindade e diferentes concepções sobre a natureza do ser.


Uma pessoa contemporânea pode se relacionar com essas ideias de maneiras diferentes. Pode estudá-las filosoficamente, incorporá-las à própria espiritualidade ou simplesmente reconhecer o contexto de onde vieram.


O que considero importante é não precisar apagar as raízes do Yoga para torná-lo acessível.


Podemos explicar.


Podemos contextualizar.


Podemos traduzir os termos.


E podemos permitir que cada pessoa aprofunde essa relação de acordo com o próprio caminho.


Afinal, o que é Yoga?


Depois de tudo isso, talvez fique claro por que eu tenho dificuldade em responder essa pergunta com uma frase curta.


Yoga é uma tradição vasta, composta por diferentes caminhos, textos e métodos. É filosofia, prática, meditação, disciplina e investigação da mente. Pode utilizar o corpo, a respiração, a atenção, o som, a devoção, o conhecimento e a ação como caminhos de transformação.


Mas existe algo que atravessa muitas dessas tradições: a percepção de que nossa experiência comum é profundamente condicionada pelos movimentos da mente e que existe a possibilidade de conhecer algo mais profundo sobre aquilo que somos.


Para Patañjali, quando as atividades de citta, o campo mental, são recolhidas, o observador pode se estabelecer em sua própria natureza.


Talvez seja justamente aí que começamos a compreender por que Yoga é tão difícil de definir apenas como exercício, bem-estar ou estilo de vida.


As posturas podem fazer parte.


Os benefícios físicos podem acontecer.


O relaxamento pode acontecer.


Mas o caminho aponta para algo maior.


Yoga nos convida a investigar a mente, a consciência, a maneira como percebemos a realidade e aquilo com que nos identificamos. E é por isso que uma tradição tão antiga ainda continua fazendo sentido para pessoas que vivem num mundo completamente diferente daquele em que seus primeiros textos foram escritos.


Nós ainda temos uma mente.


Ainda sofremos.


Ainda nos apegamos.


Ainda nos identificamos com aquilo que pensamos.


Ainda buscamos compreender quem somos.


E talvez seja por isso que o Yoga continue sendo tão atual.


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