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Por que alguns professores de Yoga não comemoram o Dia Internacional do Yoga — e por que eu escolho celebrar

23 de jun. de 2025
10 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.

Todo ano, quando chega o dia 21 de junho, vejo professores, escolas e praticantes celebrarem o Dia Internacional do Yoga, enquanto outros preferem ignorar a data ou aproveitam justamente esse momento para criticá-la. Para quem não acompanha essas discussões dentro do universo do Yoga, pode parecer estranho. Afinal, por que um professor que dedica parte da própria vida ao estudo e ao ensino do Yoga seria contra a existência de um dia internacional dedicado à prática? A resposta passa principalmente pela origem política da data, pelo governo que propôs sua criação e também pelas discussões sobre comercialização, nacionalismo e a maneira como o Yoga é utilizado como símbolo cultural.


Eu conheço essas críticas e acho importante conhecê-las. O Dia Internacional do Yoga não é uma celebração ancestral e não surgiu de um texto tradicional. É uma data moderna, institucional, proclamada pela Organização das Nações Unidas em 2014 depois de uma proposta apresentada pela Índia a partir de um discurso do primeiro-ministro Narendra Modi. A resolução recebeu o apoio de 175 Estados-membros e estabeleceu o dia 21 de junho como uma data para ampliar mundialmente a consciência sobre os benefícios do Yoga. Existe, portanto, uma origem política muito clara nessa história. Eu só não concordo com a conclusão de que, por causa disso, professores de Yoga deveriam rejeitar a data.


Por que o dia 21 de junho foi escolhido?


A escolha do dia 21 de junho também não foi aleatória. No hemisfério norte, onde está a Índia, a data coincide com o período do Solstício de Verão, quando acontece o dia mais longo do ano. A relação com o solstício apareceu desde as primeiras explicações sobre a criação do Dia Internacional do Yoga, e a primeira celebração oficial aconteceu em 21 de junho de 2015.


Dentro do universo do Yoga, existem também narrativas tradicionais que atribuem um significado simbólico a esse período do ano. Uma delas relaciona o movimento após o solstício ao Dakshinayana e à figura de Adiyogi, Shiva como o primeiro guru, de quem teria partido a transmissão do conhecimento do Yoga aos primeiros discípulos. Eu acho importante fazer essa distinção: uma coisa é a história institucional do Dia Internacional do Yoga, criado pela ONU em 2014; outra são as tradições e narrativas do Yoga que ajudam a explicar por que o solstício já possuía um significado dentro desse universo.


No hemisfério sul, naturalmente, vivemos o movimento sazonal oposto: 21 de junho marca o período do Solstício de Inverno. Ainda assim, a data internacional permanece a mesma no mundo todo.



Aula de Yoga no Dia Internacional do Yoga

A origem política da data é real


Uma das principais críticas ao Dia Internacional do Yoga está relacionada justamente a Narendra Modi e ao governo indiano. Modi pertence ao BJP, partido associado ao nacionalismo hindu, e existe uma discussão séria sobre o uso do Yoga dentro de um projeto de identidade nacional, sobre a relação desse projeto com minorias religiosas e sobre a utilização do Yoga como instrumento de projeção cultural da Índia no mundo. Essas questões não precisam ser ignoradas, e eu não acho intelectualmente sério responder a elas dizendo simplesmente que “Yoga não tem nada a ver com política”. A criação de uma data proposta por um chefe de governo, negociada diplomaticamente e aprovada por uma organização internacional é, evidentemente, também um acontecimento político.


O ponto em que eu discordo de alguns professores é outro: reconhecer que uma iniciativa teve origem política não significa que eu precise rejeitar tudo o que surgiu a partir dela. Eu não preciso concordar com Narendra Modi, apoiar o BJP ou ignorar as críticas ao nacionalismo hindu para considerar positiva a existência de um dia em que o mundo inteiro volta sua atenção para o Yoga. Para mim, uma coisa não leva automaticamente à outra.


Eu não estou comemorando Narendra Modi


Talvez essa seja a maneira mais simples de explicar a minha posição. Quando comemoro o Dia Internacional do Yoga, eu não estou comemorando Narendra Modi, o BJP, o governo indiano ou uma determinada agenda política. Estou comemorando o Yoga.


Por isso, nunca me convenceu muito a ideia de que deixar de comemorar a data seria uma posição mais consciente simplesmente porque ela foi proposta por um governo do qual alguém discorda. Se começarmos a exigir que toda iniciativa institucional seja politicamente pura para que possamos reconhecer algum valor nela, teremos dificuldade para celebrar praticamente qualquer coisa que tenha passado por governos, organismos internacionais ou instituições.


Eu consigo separar as coisas. Consigo olhar criticamente para o governo que apresentou a proposta e, ao mesmo tempo, reconhecer que a criação de um dia internacional dedicado ao Yoga trouxe uma visibilidade enorme para uma prática que faz parte da minha vida, do meu estudo e da minha profissão. Para mim, essa separação não é ingenuidade. É justamente o contrário. Eu não preciso aderir a um pacote inteiro de ideias porque reconheci valor em uma delas.


Não concordo com o boicote à data por divergência política


É aqui que minha posição fica mais clara. Eu respeito o direito de qualquer professor de não comemorar o Dia Internacional do Yoga, mas não compartilho da ideia de que rejeitar a data por causa de sua origem política seja necessariamente uma atitude mais coerente com o Yoga.


Quando a discussão se transforma em “Modi propôs, portanto eu não comemoro”, sinto que a própria prática acaba novamente reduzida à disputa política que se pretendia criticar. A data deixa de ser uma oportunidade de falar sobre Yoga e vira mais um marcador de posicionamento ideológico: quem comemora estaria de um lado, quem rejeita estaria de outro. Eu não quero me relacionar com o Yoga dessa maneira.


Posso discordar de um governo sem precisar rejeitar automaticamente uma iniciativa daquele governo. Posso estudar criticamente a relação entre Yoga, nacionalismo e política indiana sem concluir que o dia 21 de junho foi contaminado para sempre por sua origem. E posso comemorar essa data sem sentir que preciso apresentar uma declaração política antes de estender meu tapete. Em alguns momentos, me parece que a preocupação em demonstrar rejeição política acaba ocupando mais espaço do que o próprio Yoga. E essa é uma escolha que, pessoalmente, não faz sentido para mim.


O Yoga existia muito antes dessa data e continuará existindo sem ela


É claro que o Yoga não precisa do reconhecimento da ONU para existir. Estamos falando de tradições que atravessam séculos, diferentes escolas, textos, práticas, mestres e transformações históricas muito anteriores a qualquer resolução internacional.


O dia 21 de junho não legitima o Yoga. A ONU não concedeu valor à tradição e Narendra Modi não criou aquilo que hoje o mundo conhece como Yoga. Por isso, também não vejo sentido em atribuir a eles um poder tão grande a ponto de acreditar que a origem institucional da data determine o significado que todos nós precisamos dar a ela.


Para mim, o Dia Internacional do Yoga é simplesmente uma data comemorativa contemporânea. Um momento no calendário em que milhões de pessoas, em diferentes países, voltam sua atenção para uma tradição que tem raízes na Índia e hoje é praticada ao redor do mundo. A própria ONU apresenta a data como uma oportunidade de ampliar a consciência sobre os benefícios do Yoga e reconhece explicitamente sua origem indiana. E eu gosto da ideia de existir um dia assim.


Se o Yoga recebe mais atenção nesse dia, eu quero participar dessa conversa


Existe ainda um aspecto bastante prático na minha escolha. No dia 21 de junho, pessoas que normalmente não pesquisariam sobre Yoga veem reportagens, eventos, aulas, publicações e conversas sobre o assunto. Algumas terão seu primeiro contato com a prática justamente por causa dessa visibilidade.


Eu vejo isso como oportunidade. Se existe um dia em que mais pessoas estão prestando atenção ao Yoga, eu quero falar sobre Yoga. Quero lembrar que ele não se resume a flexibilidade ou a posturas bonitas. Quero falar de filosofia, meditação, pranayama, yamas, niyamas, estudo, disciplina, prática e de tudo aquilo que normalmente não cabe numa imagem de alguém fazendo um asana numa praia.


Às vezes vejo professores reclamarem — com razão — que o Yoga contemporâneo foi reduzido demais ao corpo, mas recusarem justamente um dos momentos em que existe grande atenção pública sobre a prática porque não concordam com a origem política da data. Eu prefiro ocupar esse espaço e ampliar a conversa. Se alguém chegou pelo evento, pela aula aberta ou por uma publicação do Dia Internacional do Yoga, essa pode ser apenas a porta de entrada. Não precisamos exigir que o primeiro contato de alguém com Yoga carregue toda a complexidade da tradição. Podemos apresentar essa complexidade aos poucos.


A comercialização da data também não me faz querer abandoná-la


Outra crítica frequente é que o Dia Internacional do Yoga se tornou uma oportunidade comercial. Marcas lançam campanhas, lojas vendem produtos, estúdios fazem programações especiais e empresas tentam se aproximar do universo do bem-estar. Isso acontece.


Mas também aqui minha conclusão não é que, portanto, devemos deixar de comemorar. Eu trabalho com Yoga. Yoga também é a minha profissão. Tenho dificuldade com uma visão em que qualquer aproximação entre Yoga, dinheiro, marketing e negócio seja imediatamente interpretada como perda de profundidade ou falta de respeito pela tradição.


Um estúdio pode realizar uma programação especial no Dia do Yoga e cobrar por ela. Uma professora pode divulgar suas aulas. Uma marca pode patrocinar um evento. Nada disso, isoladamente, me diz se aquilo que está sendo oferecido tem profundidade ou não. O que me incomoda é quando o Yoga se resume ao produto. Quando desaparecem filosofia, história, prática, estudo e contexto e sobra apenas uma estética facilmente vendável. Mas, se isso me incomoda, tenho ainda mais motivo para participar da conversa, não menos.


Celebrar também é lembrar de onde o Yoga veio


Para mim, não faria sentido comemorar o Dia Internacional do Yoga ignorando a Índia. O Yoga se tornou uma prática global e passou por inúmeras transformações ao longo desse processo. As formas contemporâneas de Yoga que encontramos hoje em São Paulo, Nova York, Londres ou qualquer outra grande cidade não são simplesmente reproduções intactas de uma prática que permaneceu igual durante milhares de anos. Existe uma história muito mais complexa.


Mas reconhecer essa complexidade não apaga a origem indiana do Yoga. Os textos, os conceitos, a linguagem, as tradições e grande parte das práticas que estudamos têm raízes naquele contexto. Então, se existe um dia internacional dedicado ao Yoga, acho que ele também pode servir para lembrar disso.


E reconhecer a Índia não significa precisar idealizá-la. A Índia não é uma fantasia espiritual. É um país real, diverso, contraditório, com religião, política, conflitos, desigualdades e disputas como qualquer sociedade complexa. Consigo reconhecer a origem indiana do Yoga, estudar criticamente a política contemporânea daquele país e continuar celebrando uma tradição que veio dali. Mais uma vez, não sinto necessidade de escolher apenas uma dessas coisas.


Eu também não acredito que o Yoga deva ser transformado num teste ideológico


Talvez essa seja uma das coisas que mais me incomodam nessa discussão. Quando começamos a determinar que uma pessoa consciente deveria comemorar ou não comemorar determinada data de acordo com seu posicionamento político, estamos criando mais um tipo de teste ideológico dentro do Yoga. E eu não quero isso.


O universo do Yoga já tem discussões suficientes sobre quem é tradicional, quem é moderno, qual linhagem é legítima, o que pode ou não ser chamado de Yoga e quem estaria supostamente praticando da maneira correta. Não acho que precisamos acrescentar a isso uma divisão em que celebrar 21 de junho passa a ser interpretado como sinal de adesão a determinada política.


Eu não voto na Índia. Não sou militante de um partido político indiano. Minha relação com essa data não passa por esse lugar. Sou professora e praticante de Yoga e tenho uma prática que transformou profundamente a minha vida. É isso que estou celebrando.


O Yoga pode ser maior do que o contexto que criou uma data


Quando digo que o Yoga é maior do que essa disputa, não estou dizendo que ele existe fora da história ou que devemos ignorar a política. Estou dizendo que nenhuma decisão de um governo contemporâneo consegue se apropriar inteiramente de uma tradição tão extensa, plural e complexa.


Narendra Modi pode ter apresentado a proposta à ONU. O governo indiano pode utilizar o Yoga como instrumento de política cultural. Professores podem criticar isso e pesquisadores podem estudar esse fenômeno. Nada disso faz com que o Yoga passe a pertencer a Narendra Modi.


E é justamente por não conceder a nenhum governo esse poder que não sinto que precise entregar também a ele o dia 21 de junho. A data pode ter surgido a partir daquela iniciativa, mas aquilo que eu faço com ela hoje pertence à minha relação com o Yoga.


Para mim, o Dia Internacional do Yoga também pode ser um dia de svadhyaya


Comemorar não precisa significar realizar um grande evento ou publicar uma fotografia complicada no Instagram. Pode ser simplesmente voltar para a prática e observar a própria relação com o Yoga. Eu gosto de pensar nesse dia também a partir de svadhyaya, o autoestudo. O que mudou na minha prática desde o ano anterior? O que estou estudando agora? O que eu ensinava alguns anos atrás e hoje compreendo de outra maneira? Onde estou apenas repetindo discursos que ouvi sem investigá-los? Que aspectos do Yoga ainda conheço superficialmente? Em quais pontos minha prática amadureceu?


Acho que essas perguntas são uma forma muito mais interessante de honrar uma tradição do que simplesmente reproduzir uma mensagem bonita porque chegou uma data comemorativa. A celebração pode ter profundidade. E, para mim, consciência crítica e celebração não são opostos.


Eu escolho comemorar


Eu sei como o Dia Internacional do Yoga surgiu. Sei que existe política nessa história, sei que existem interesses de Estado, sei que há críticas ao governo de Narendra Modi e sei que a transformação do Yoga numa marca global também levanta questões importantes.


E mesmo sabendo de tudo isso, eu comemoro. Comemoro porque não acredito que rejeitar uma data dedicada ao Yoga seja uma obrigação de quem tem consciência política. Comemoro porque não considero que participar do Dia Internacional do Yoga seja uma declaração de apoio ao governo indiano. Comemoro porque uma iniciativa pode ter uma origem com a qual eu não concorde integralmente e ainda assim produzir alguma coisa que considero positiva.


Principalmente, comemoro porque o Yoga é parte fundamental da minha vida. É uma prática que estudo, ensino e continuo tentando compreender. É algo que me acompanha todos os dias muito além do dia 21 de junho.


Então, quando chega uma data em que o mundo inteiro fala um pouco mais sobre Yoga, eu prefiro aproveitar essa atenção para falar mais sobre ele, praticar, estudar, honrar os professores que vieram antes de mim e lembrar por que continuo nesse caminho. Eu não estou comemorando um político. Estou comemorando o Yoga. E, para mim, isso é motivo suficiente.

1 comentário


lncf02
23 de jun. de 2025

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