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Yoga gratuito em parques: generosidade, democratização ou trabalho não remunerado?

30 de abr. de 2025
11 min de leitura

Atualizado: 30 de ago.

Eu dou aula de Yoga em parque e gosto profundamente dessa experiência. Gosto de praticar ao ar livre, de ocupar a cidade de outra maneira e de encontrar pessoas que talvez não tivessem chegado até uma aula dentro de um estúdio. Por isso, a minha questão com determinados projetos de Yoga gratuito nunca foi o fato de a aula acontecer num parque. Também não sou contra ações gratuitas e muito menos contra a ideia de serviço dentro do Yoga. O que eu questiono é uma coisa mais específica: quando uma aula gratuita passa a acontecer de maneira recorrente, organizada por uma instituição, sustentada pelo trabalho voluntário de professores e apresentada principalmente como uma forma de democratizar o Yoga, acho legítimo perguntar quem de fato está sendo alcançado por essa democratização e quem está pagando para que ela aconteça. Porque uma aula pode ser gratuita para quem participa sem que o trabalho de quem ensina também precise ser gratuito, e, para mim, essa diferença muda bastante a conversa.


Aula de Yoga em parque e valorização do trabalho do professor

Acesso ao Yoga importa, mas onde oferecemos esse acesso também importa


Se a proposta é realmente ampliar o acesso ao Yoga para pessoas que normalmente não teriam condições de frequentar uma aula, eu acredito que precisamos falar também sobre território. Não consigo olhar da mesma maneira para uma ação gratuita realizada numa comunidade com pouca oferta de atividades de bem-estar e para uma programação semanal gratuita mantida em parques localizados em regiões onde existe uma enorme oferta de estúdios, academias, personal trainers, atividades esportivas e outros serviços privados. As duas podem ser aulas de Yoga gratuitas, mas não necessariamente cumprem a mesma função social.


É claro que um parque público é frequentado por pessoas de diferentes condições financeiras. Eu não tenho como olhar para quem chegou para praticar no Ibirapuera, no Villa-Lobos ou em qualquer outro parque e decidir quem poderia ou não pagar por uma aula. Também não acredito que uma atividade gratuita precise exigir comprovante de renda para ser legítima. Mas, se a palavra usada para justificar uma iniciativa é democratização, acho impossível retirar a discussão sobre acesso do contexto em que aquela atividade acontece. Onde estão as pessoas que têm menos acesso ao Yoga? Quais regiões praticamente não têm estúdios? Quem não consegue pagar uma mensalidade? Que barreiras impedem essas pessoas de chegar à prática? Os locais e horários escolhidos pelo projeto realmente ajudam a atravessar essas barreiras? Essas perguntas não deveriam ser inconvenientes para um projeto social. Deveriam fazer parte dele.


Eu sou a favor de Yoga gratuito quando a gratuidade tem uma função clara


Existem inúmeras situações em que oferecer Yoga gratuitamente faz sentido para mim. Uma atividade numa instituição social, um projeto dentro de uma comunidade, uma ação beneficente, um evento público, uma iniciativa financiada para atender determinada população ou simplesmente uma professora que decidiu oferecer algumas horas do próprio trabalho porque isso faz parte da maneira como deseja contribuir. Eu mesma acredito que nem tudo o que fazemos precisa se transformar numa relação comercial.


O que me incomoda é quando começamos a tratar toda aula gratuita como se ela fosse, por definição, mais generosa ou mais alinhada com os valores do Yoga do que uma aula paga. Não é tão simples. Uma aula gratuita pode fazer parte de um projeto social extremamente sério, mas pode também funcionar como divulgação de uma escola, construção de comunidade, ocupação de marca, porta de entrada para formações ou estratégia de posicionamento, e uma mesma ação pode cumprir várias dessas funções ao mesmo tempo. Não vejo problema em reconhecer isso. O problema aparece quando existe interesse institucional, existe benefício para uma marca, existe uma estrutura recorrente e, ainda assim, o único elemento que parece precisar se afastar de qualquer relação com dinheiro é justamente o trabalho do professor.


Karma Yoga não significa que o trabalho deixou de ser trabalho


Dentro da filosofia do Yoga existe uma reflexão importante sobre ação, serviço e desapego aos frutos da ação. Karma Yoga nos convida a olhar para a maneira como agimos e para a relação que estabelecemos com aquilo que esperamos receber em troca, e eu valorizo profundamente esse ensinamento. Mas não acredito que Karma Yoga possa ser utilizado como uma resposta automática para qualquer questionamento sobre trabalho não remunerado.


Uma coisa é eu decidir oferecer meu tempo e meu conhecimento como serviço. Outra é uma organização criar uma atividade recorrente, beneficiar-se também daquela atividade e explicar para os profissionais que sustentam sua execução que doar o trabalho faz parte de um caminho espiritual. Existe uma diferença importante entre escolher servir e existir dentro de uma estrutura em que o serviço de algumas pessoas é necessário para que o projeto continue funcionando, e acho que o próprio Yoga deveria nos permitir olhar para essa diferença com bastante consciência.


Karma Yoga fala sobre nossa relação com a ação e com seus frutos. Para mim, isso não significa que o professor precise abrir mão de remuneração para que seu trabalho seja espiritualmente legítimo. Posso receber para dar uma aula e ainda assim ensiná-la sem transformar cada minuto daquela prática numa obsessão pelo retorno financeiro. Posso, da mesma maneira, dar uma aula gratuitamente e estar completamente interessada em exposição, reconhecimento ou aprovação. O preço da aula, sozinho, não revela a qualidade da intenção.


Professores recém-formados precisam de experiência, mas experiência não precisa significar trabalho gratuito


Uma das justificativas que mais me incomodam nesse tipo de estrutura é a ideia de que professores recém-formados precisam dar aulas gratuitamente para adquirir experiência. Eles realmente precisam de experiência. Todo professor precisa começar em algum lugar, enfrentar uma turma, descobrir como é conduzir pessoas diferentes, errar uma sequência, ajustar sua fala e desenvolver presença em sala. Formação nenhuma substitui completamente isso.


Mas não vejo por que “ganhar experiência” precisa ser automaticamente traduzido como “trabalhar de graça”. Existem muitas profissões em que profissionais iniciantes recebem menos do que profissionais experientes, e isso faz sentido porque experiência tem valor. Outra coisa completamente diferente é estabelecer que a experiência do profissional que está começando vale zero.


Um professor novo pode cobrar um valor inicial, dar aulas em grupos menores, fazer substituições, trabalhar em estúdios, criar uma primeira turma ou participar de projetos que remuneram seus profissionais. E, claro, pode decidir participar de uma atividade voluntária. O que eu questiono é quando essa última possibilidade começa a parecer a passagem obrigatória para quem está chegando à profissão. Eu também escrevi sobre esse começo no artigo Dicas para professores de Yoga: o que eu gostaria de ter sabido quando comecei a dar aulas.


Gratuito para o aluno não precisa significar gratuito para o professor


Talvez essa seja, para mim, a principal questão. Se queremos democratizar o Yoga, por que a primeira solução precisa ser retirar a remuneração do professor? Uma empresa pode patrocinar o projeto, uma instituição pode contratar os profissionais e oferecer a atividade gratuitamente ao público, um projeto pode buscar recursos públicos ou privados, um estúdio pode criar bolsas financiadas pela própria operação e uma marca interessada em associar seu nome a bem-estar pode custear aquela programação. Existem vários modelos possíveis, inclusive projetos sociais em que o público participa gratuitamente e os profissionais são remunerados porque alguém compreendeu que acesso também precisa de financiamento.


Quando a única maneira de tornar o Yoga gratuito é fazer com que o professor trabalhe de graça, a democratização está sendo financiada por uma pessoa específica. E geralmente é justamente a pessoa que tem menos poder dentro da estrutura: o professor recém-formado, querendo experiência, visibilidade, pertencimento e uma oportunidade de começar. Essa dinâmica merece pelo menos ser questionada.


Existe um custo mesmo quando a aula acontece num gramado


Uma aula no parque pode parecer uma estrutura extremamente simples. Não existe aluguel de sala, recepção ou uma série de custos que associamos a um estúdio. Mas existe trabalho. A professora prepara a aula, se desloca, chega antes, organiza o espaço, ensina, conversa com participantes e dedica parte da sua agenda àquela atividade. Em alguns projetos, também ajuda a divulgar, responder mensagens, organizar grupos e reunir alunos.


E existe todo o investimento anterior naquela profissional: formação, cursos, prática pessoal, estudo e experiência. Nada disso significa que ela não possa decidir oferecer esse trabalho voluntariamente. Pode. Mas o fato de alguém doar alguma coisa não significa que aquilo deixou de ter valor. Se eu doo um trabalho que vale R$ 300, eu doei R$ 300 em trabalho. Eu não provei que aquele trabalho vale zero. Essa diferença é importante quando começamos a construir uma cultura profissional.


Tenho mais dificuldade ainda com a gratuidade recorrente em regiões de alta oferta


Esse talvez seja o ponto em que minha posição é mais clara. Eu consigo compreender muito facilmente um projeto que identifica uma população com pouco acesso ao Yoga e cria meios para chegar até ela. Tenho muito mais dificuldade em entender como democratização pode ser o argumento principal para manter uma extensa programação gratuita, semana após semana, em parques que já estão inseridos em regiões com enorme oferta de atividades de Yoga, academias, estúdios e serviços de bem-estar.


Não acho que as pessoas que frequentam essas regiões não mereçam uma aula gratuita. Essa não é a questão. A minha pergunta é sobre prioridade. Se existe uma quantidade limitada de professores voluntários, de energia, de organização e de horas disponíveis, e o propósito declarado é democratizar o acesso, onde essa estrutura produz o impacto mais coerente com esse propósito? Para mim, o território precisa fazer parte dessa resposta.


Caso contrário, corremos o risco de chamar de democratização aquilo que, na prática, está oferecendo gratuitamente em uma região um serviço pelo qual outros profissionais próximos estão tentando cobrar. E aí já não estamos falando apenas de acesso. Estamos interferindo também num mercado profissional que existe naquele território.


Uma programação gratuita recorrente não é igual a uma ação pontual


Também faço uma distinção importante entre oferecer uma aula gratuita e manter uma grade gratuita. Uma prática aberta num evento, uma ação especial ou uma aula experimental tem um impacto muito diferente de criar horários fixos durante a semana e nos finais de semana em que qualquer pessoa sabe que poderá encontrar Yoga gratuitamente de forma contínua.


Quanto mais regular a oferta, mais ela deixa de ser apenas uma introdução à prática e passa a se tornar uma alternativa permanente aos serviços pagos existentes naquela região. Isso não significa que todas as pessoas que frequentam a atividade gratuita seriam clientes de um estúdio ou de um professor particular. Claro que não. Mas também seria ingênuo dizer que uma oferta gratuita frequente e uma oferta profissional paga existem em universos completamente separados e nunca disputam atenção, público ou percepção de valor, principalmente quando acontecem praticamente no mesmo lugar.


Eu dou aula no parque e cobro por isso


Talvez seja justamente por também trabalhar dessa maneira que essa discussão me interessa tanto. Eu acredito em Yoga no parque. Acredito na prática ao ar livre, gosto da experiência e sei que existe um público que escolhe esse formato. Mas o parque ser público não significa que o trabalho que realizo dentro dele precise ser gratuito.


Quando alguém paga por uma aula comigo, não está pagando pelo gramado. Está pagando pela aula, pelo meu tempo, pela condução, pelo estudo que existe por trás dela, pela experiência, pela organização e pelo trabalho necessário para que aquela prática aconteça. Acho importante fazer essa distinção porque, às vezes, existe a ideia de que cobrar faria mais sentido dentro de um estúdio porque existe um espaço físico a ser pago. Mas o principal serviço nunca foi o espaço. É o trabalho do professor.


Marketing também pode coexistir com uma ação gratuita


Outra coisa que prefiro falar com clareza: eu não vejo necessariamente um problema em uma aula gratuita também gerar divulgação. Uma escola pode realizar uma ação aberta e ser conhecida por novas pessoas. Uma marca pode patrocinar uma atividade e ganhar exposição. Uma professora pode dar uma aula experimental esperando que algumas pessoas depois procurem suas aulas regulares. Isso é marketing, e marketing faz parte de um negócio.


O que me incomoda é quando existe uma resistência enorme em admitir que esse benefício também existe, principalmente se uma instituição ganha exposição, fortalece sua comunidade, mostra sua metodologia, mantém professores e ex-alunos próximos à escola e se torna conhecida pelo público por meio de uma atividade recorrente. Tudo isso tem valor. Então talvez não seja suficiente dizer que não existe dinheiro circulando naquele momento e, por isso, a atividade é puramente altruísta. Nem todo retorno vem no caixa no mesmo dia.


Cobrar não torna ninguém menos yogi


Acho que chegamos então numa discussão ainda maior, que é a relação que o universo do Yoga mantém com dinheiro. Existe uma culpa estranha em torno de querer ganhar bem ensinando Yoga, como se cobrar, pensar em margem, estabelecer preço, construir uma empresa ou desejar uma carreira financeiramente próspera colocasse o professor um pouco mais distante da filosofia.


Eu discordo profundamente disso. Professores de Yoga também pagam aluguel, alimentação, transporte, impostos, formações e contas. Quem mantém um espaço ainda paga equipe, sistemas, limpeza, materiais, manutenção, divulgação e uma série de custos que continuam chegando independentemente da quantidade de espiritualidade envolvida naquele trabalho. Ter uma profissão sustentável não me impede de praticar generosidade. Na verdade, acho que acontece o contrário: quanto mais sustentável é a minha vida profissional, mais liberdade eu tenho para escolher quando quero oferecer alguma coisa sem cobrar. Nesse caso, existe realmente uma escolha.


Serviço precisa de liberdade


É por isso que, para mim, Karma Yoga continua fazendo sentido dentro dessa discussão. Serviço tem valor justamente porque existe intenção. Se faço alguma coisa porque acredito nela e escolhi dedicar meu tempo àquilo, essa ação pode ocupar um lugar importante na minha prática.


Mas, se professores começam a sentir que precisam trabalhar gratuitamente para ganhar experiência, manter vínculo com uma escola, provar compromisso com o Yoga ou aumentar as chances de receber oportunidades futuras, eu já não sei se estamos falando apenas de desapego aos frutos da ação. Existe também uma relação profissional acontecendo. E relações profissionais precisam poder ser examinadas como relações profissionais, mesmo dentro do Yoga. Filosofia nenhuma deveria nos impedir de olhar para uma estrutura e perguntar quem tem poder, quem recebe benefícios e quem oferece trabalho.


Democratizar o Yoga exige pensar além do preço


Talvez esse seja o ponto que eu mais acrescentaria hoje ao texto que escrevi originalmente. Democratização não é simplesmente colocar o preço em zero. Se fosse assim, bastaria oferecer uma aula gratuita em qualquer lugar e automaticamente teríamos ampliado o acesso ao Yoga.


Mas acesso envolve território, informação, deslocamento, pertencimento, horários, representação, linguagem e uma série de outras barreiras. Uma atividade gratuita pode continuar sendo muito pouco acessível para quem vive longe dela, enquanto uma atividade paga por um patrocinador dentro de uma comunidade pode alcançar exatamente quem dificilmente chegaria a um estúdio. Por isso, quando um projeto utiliza democratização como propósito, eu acho justo olhar além da gratuidade e perguntar quem está conseguindo acessar aquilo que antes não acessava. Para mim, essa é uma pergunta muito mais interessante.


Valorizar o Yoga também é valorizar quem trabalha com ele


Eu continuo acreditando em serviço, em projetos sociais e em compartilhar conhecimento. Não tenho interesse em transformar o Yoga numa experiência em que absolutamente tudo precise ser comprado e vendido. Mas também não quero romantizar trabalho gratuito.


Um professor pode decidir doar seu trabalho. Pode fazer isso toda semana, se quiser. Pode considerar essa atividade uma parte importante da própria prática de Karma Yoga. O que não deveríamos fazer é transformar essa escolha individual numa referência de como a profissão inteira deveria funcionar, principalmente quando existe uma instituição por trás, uma marca sendo construída, uma metodologia sendo divulgada e um mercado de professores tentando tornar aquela mesma atividade uma fonte digna de renda.


Hoje, portanto, eu faria perguntas um pouco diferentes das que fiz quando escrevi este texto pela primeira vez. Se a proposta é democratizar, onde essa aula está acontecendo e quem realmente está sendo alcançado? Se a proposta é serviço, quem escolheu servir e em quais condições? Se existe uma instituição organizando, quais benefícios ela recebe e quais custos assume? Se a programação é recorrente, por que o professor precisa ser a parte não remunerada da estrutura? E se existe dinheiro para comunicação, formação, eventos, estrutura e crescimento da escola, por que remunerar quem efetivamente dá a aula não poderia também fazer parte da conta?


Para mim, essas perguntas não diminuem o espírito do Yoga. Elas apenas recusam a ideia de que consciência profissional e consciência espiritual precisam estar em lados opostos. Eu acredito em Yoga acessível, mas também acredito em professor de Yoga valorizado. E não acho que seja necessário sacrificar uma coisa para construir a outra.

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